Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

Artigos Exclusivamente On-line de 2017

19 de Abril –

Dia do Exército Brasileiro

Coronel de Infantaria Danilo Mota Alencar

Artigo publicado em: abril de 2017

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Integrantes da Missão Multidimensional

“Nós, abaixo-assinados, nos conjuramos e prometemos, em serviço da liberdade, não faltar a todo tempo que for necessário, com toda a ajuda de pessoas e fazendas, contra qualquer inimigo, em restauração de nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém; sob pena de quem o contrário fizer ser tido por rebelde e traidor, e ficar sujeito ao que as leis em tal caso permitam.

E debaixo deste comprometimento nós assinamos em 23 de maio de 1645.

João Fernandes Vieira, Antônio Bezerra, Antônio Cavalcanti, Bernardino de Carvalho, Francisco Berenguer de Andrade, Antônio da Silva, Pantaleão Cirne da Silva, Luís da Costa Sepúlveda, Manuel Pereira Côrte Real, Antonio Borges Uchoa, Amaro Lopes Madeira, Bastião de Carvalho, Manuel Alves Deosdará, Antônio Carneiro Falcato, Antônio Carneiro de Mariz, Francisco Bezerra Monteiro, Álvaro Teixeira de Mesquita, Padre Diogo Rodrigues da Silva”. (Pacto assinado pelos líderes da Insurreição Pernambucana)

No dia 19 de abril o Exército Brasileiro comemora a data de sua origem histórica como Força de Defesa do Brasil. A data se refere à Primeira Batalha do Monte dos Guararapes, ocorrida em 1648, em Pernambuco. Essa batalha, a mais importante vitória dos brasileiros contra forças invasoras holandesas, definiu a superioridade militar das tropas nacionais, destruindo a capacidade do inimigo de empreender operações ofensivas e obrigando-o retrair para as fortificações existentes na cidade do Recife, ficando sujeito à fome e à sede, devido ao cerco promovido pelos defensores do Brasil.

A Primeira Batalha do Monte dos Guararapes está inserida no contexto da Insurreição Pernambucana, como ficou historicamente conhecida a luta empreendida por nacionais brasileiros contra a Companhia das Índias Ocidentais, que representavam os interesses da Coroa Holandesa na costa do Nordeste do Brasil. Essa verdadeira epopeia do povo brasileiro pode ser considerada a gênese da nacionalidade brasileira, por ter sido a primeira oportunidade em que indivíduos originários das três etnias que formaram o povo brasileiro (europeus, africanos e ameríndios) se uniram para defender sua “Pátria-Brasil”. Efetivamente, foi nesse contexto histórico que a palavra “Pátria” foi usada, pela primeira vez, para referir-se à terra brasileira. Ela foi transcrita no pacto assinado pelos 18 líderes da revolta, no qual assumiam o compromisso de lutar com todos os seus recursos para libertar Pernambuco do domínio holandês. Dessa forma, caracterizou-se, nesse episódio, a criação de uma força armada brasileira comprometida com a defesa da Pátria contra agressores estrangeiros, de onde se extrai a motivação filosófica da escolha da data de ocorrência dessa batalha como origem da Força Terrestre Nacional, o Exército Brasileiro.

Muitos outros aspectos, porém, corroboram com essa decisão, a começar pelo fato de que Portugal, a metrópole, não podia assumir, abertamente, uma guerra contra os invasores do Nordeste, impedido pelos termos de um tratado de não agressão assinado com a Holanda, no qual buscava aliados contra a Espanha, de quem tentava se libertar, após um período de sessenta anos de união das coroas ibéricas sob o trono espanhol (1580-1640). Também por causa de sua luta contra a Espanha, Portugal não possuía recursos para sustentar, naquela ocasião, a guerra pela libertação de Pernambuco. Assim, além do sangue e suor dos soldados, era também o ouro dos brasileiros que sustentava as forças combatentes, fortalecendo a ideia de um movimento nacional brasileiro.

As forças brasileiras eram formadas por brancos descendentes de europeus, comandados por André Vidal de Negreiros, nascido na Capitania da Paraíba, filho de portugueses; negros e mulatos liderados por Henrique Dias, nascido também no Brasil, filho de pais africanos; e índios liderados por Felipe Camarão, da tribo potiguar, nascido na Capitania de Rio Grande. Eram tropas predominantemente formadas por nascidos no Brasil que lutavam contra um exército invasor muito superior em equipamento e treinamento, para defender sua Pátria. Muito esclarecedor desse sentimento patriótico é a declaração dada por Henrique Dias aos oficiais holandeses que incitavam sua rendição, alegando que a resistência não era autorizada pela Coroa Portuguesa:

Meus senhores holandeses. Meu camarada, o Camarão, não está aqui; mas eu respondo por ambos. Saibam Vossas Mercês que Pernambuco é Pátria dele e minha Pátria, e que já não podemos sofrer tanta ausência dela. Aqui haveremos de perder as vidas, ou havemos de deitar a Vossas Mercês fora dela. E ainda que o Governador e Sua Majestade nos mandem retirar para a Bahia, primeiro que o façamos havemos de responder-lhes, e dar-lhes as razões que temos para não desistir desta guerra.

Mais um fator que justifica a escolha dessa batalha como origem histórica do Exército é a excelência de seu planejamento e execução, onde a engenhosidade e adaptabilidade dos líderes brasileiros e coragem e determinação das tropas combatentes asseguraram uma vitória decisiva para as forças nacionais, que, embora lutando em considerável desvantagem numérica, infligiu uma derrota contundente a um dos exércitos mais poderosos do mundo, durante o século XVII. Nessa batalha, como em outras contendas ocorridas durante a Insurreição, pôde ser observada o uso de táticas inovadoras, baseadas em lutas de guerrilhas, que aproveitaram o espírito guerreiro e o melhor conhecimento do terreno, por parte das tropas brasileiras.

Antes mesmo de a data de sua ocorrência ser oficialmente escolhida como data oficial do aniversário do Exército, a Batalha do Monte dos Guararapes já era reconhecida como fato histórico altamente relevante no desenvolvimento da identidade nacional brasileira e origem do Exército nacional. Tanto que o General Mascarenhas de Moraes, Comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutou nos campos de batalha da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, ao retornar vencedor ao Brasil, em 1945, foi ao campo de batalha dos Guararapes depositar os louros da Vitória recebidos na Itália. Naquela ocasião, ele declarou “[…] nesses montes sagrados, na vitoriosa batalha contra o invasor, as forças armadas brasileiras foram forjadas e as bases do Brasil como nação foram lançadas […]”. Por todos esses motivos, o Comando do Exército decidiu instituir a data de ocorrência da primeira Batalha de Guararapes como data máxima da Força terrestre brasileiro, em que se comemora seu surgimento.

Ao longo de sua existência, o Exército brasileiro tem contribuído para o fortalecimento do espírito nacional. A condução do treinamento militar básico para recrutas realizado, anualmente, por meio do Serviço Militar Inicial fornece a oportunidade para que milhares de jovens possam participar da Defesa da Pátria, desenvolvendo atributos de nacionalidade que permitem que tenham uma melhor compreensão do seu compromisso individual com a prosperidade da toda a Nação. Da mesma forma, o papel desempenhado pelas unidades de fronteira, localizadas nos mais distantes rincões do território brasileiro, levando a assistência do Estado a populações que têm no Exército, o único referencial de brasilidade, é a certeza da soberania. Mesmo fora das fronteiras nacionais, tropas do Exército e seus integrantes conduzem profícuos e, reconhecidamente, eficientes trabalhos em missões de paz sob a égide de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA), elevando o nome do Brasil como uma nação solidária e participativa na manutenção da paz mundial.

A presença da Força terrestre também é inequívoca na construção de um país maior e melhor para o povo brasileiro. Sua participação no desenvolvimento econômico e científico é significativa, desde o tempo do Império, quando oficias do Exército conduziam a construção de obras de infraestrutura fundamentais para o crescimento do país, além da importante contribuição de seus pesquisadores e institutos científicos no impulso ao desenvolvimento tecnológico brasileiro. Em uma atividade não menos importante, os integrantes do Exército se fizeram presentes em todas as calamidades públicas ocorridas por desastres naturais ou acidentes de dimensões catastróficas, na tentativa de superar a crise e levar assistência às vítimas. Sem nunca descuidar do “Braço Forte” necessário à defesa contra agressões externas, a “Mão Amiga” do Exército sempre esteve estendida, em prol do povo brasileiro.

Nos dias atuais, o Exército continua a cumprir seu papel constitucional de defender a Pátria e garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. Aliado a isso, empenha-se arduamente na tarefa de manter-se atualizado, buscando alcançar o nível tecnológico e doutrinário exigidos para o combate do século XXI. Com essa finalidade, empreende um esforço de transformação de toda a sua estrutura e moderniza seus equipamentos. Ao mesmo tempo, realiza um trabalho conjunto com os representantes da indústria nacional e centros de pesquisa científico-tecnológicos com o objetivo de contribuir para que o Brasil consiga alcançar um nível de desenvolvimento tecnológico que o coloque em posição de destaque no contexto mundial. Tudo isso, considerando a realidade brasileira, almejando ser o Exército que o Brasil merece ter.

Desde sua origem, em Guararapes, até os dias atuais, o Exército Brasileiro sempre esteve intimamente ligado à História do povo brasileiro e aos seus anseios. Formado pelo mesmo amálgama de raças, crenças e valores que constitui a Nação brasileira, a Força Terrestre se orgulha de ter participado, com relevo, de todos os grandes e decisivos passos da História Nacional, desde as lutas pela manutenção do imenso território, no passado, até os esforços atuais para a melhoria das condições sociais e desenvolvimento tecnológico do país. Assim, ao comemorar mais uma data da Batalha de Guararapes, marco histórico do surgimento da Força Terrestre Brasileira, todos os seus integrantes reverenciam os heróis do passado e reafirmam seu compromisso de continuar sempre prontos a sacrificar a própria vida na defesa da Pátria Brasileira e, irmanados com todos os brasileiros, trabalhar para a construção de um Brasil mais forte!

EXÉRCITO BRASILEIRO, PREPARADO PARA O FUTURO!

Referências

  1. - BRASIL. Exército Brasileiro. Manual EB 20-MF-10.101 O Exército Brasileiro, 1 Edição. 2014
  2. - BRASIL. Biblioteca do Exército. The Army in Brazilian History – Volume 1/Colony. 1998
  3. - BRASIL. Centro de Comunicação Social do Exército. Sinopse Histórica do Exército Brasileiro; sem data
  4. - BRASIL. Centro de Comunicação Social do Exército. Revista “Exército Brasileiro- Braço Forte, Mão Amiga”. 1997
 

Coronel de Infantaria Danilo Mota Alencar Alencar serve na função de Oficial de Ligação do Exército Brasileiro junto ao Centro de Armas Combinadas do Exército dos EUA e Redator-Assessor da Edição Brasileira da Military Review, no Forte Leavenworth, Kansas.