Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

Estamos Perdendo Oportunidades para Desenvolver a Prontidão Permanente de Todos os Componentes nas Brigadas de Combate

Ten Cel Nicholas Melin, Exército dos EUA

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Integrantes da Companhia A, 116o Batalhão de Engenharia de Brigada, posicionam sua viatura de abertura de brecha M1150 durante um exercício de tiro real no Centro Nacional de Treinamento, Forte Irwin, Califórnia, 12 Jun 2019. (Foto da Cb Alisha Grezlik, Exército dos EUA)

Desenvolver a prontidão para combater e vencer nas operações de combate em larga escala é a prioridade número um do Exército dos Estados Unidos da América (EUA), e os centros de treinamento de combate (combat training centers — CTC) representam a prova decisiva, onde são testadas as capacidades das principais formações de combate da Força, as brigadas de combate (brigade combat teams — BCT). O treinamento preparatório e a execução de um rodízio em um CTC são o modo pelo qual uma BCT realiza o aprestamento final para o combate. Verbas, pessoal, tempo de treinamento e priorização de recursos de adestramento são todos canalizados para as BCT, a fim de permitir que os comandantes certifiquem suas tropas desde o escalão grupo de combate até batalhão. Assim que o treinamento no CTC é concluído, uma unidade é considerada pronta para ser empregada em todas as partes do mundo. Com efeito, pode-se dizer que o rodízio no CTC é a principal maneira pela qual o Exército dos EUA desenvolve a prontidão das BCT.

Inúmeros capacitadores dos escalões acima de brigada […] não têm nenhum vínculo habitual com as BCT que eles vão apoiar.

[N. do T.:
*O Cap Colin Marcum explica que não há uma definição consagrada do termo, acrescentando:

As referências feitas a capacitadores em artigos militares […] enfatizam que eles são capacidades em reforço que apoiam diretamente a consecução da missão, mas não são exigidos, necessariamente, caso outros capacitadores e seus efeitos possam ser fornecidos. Nesse caso, nossa definição […] será “uma organização ou capacidade que apoia uma linha de ação em particular e/ou consecução de um objetivo específico”. Um capacitador, nesse caso, não é universal, mas depende da situação. Por exemplo, uma bateria de artilharia de campanha pode apoiar um batalhão de infantaria na defensiva com fogos e, nesse caso, a artilharia seria considerada um capacitador, pois capacita a infantaria a cumprir sua missão. Por sua vez, a bateria de artilharia de campanha poderia receber um pelotão de infantaria para reforçar sua defesa de bateria, e tal pelotão de manobra seria considerado um capacitador por reduzir algumas das responsabilidades de segurança para aquela bateria.


Veja Colin Marcum, “How Enablers Shape the Deep Fight for the BCT”, Infantry Magazine, vol. 106, no 2, p. 39-47, https://www.benning.army.mil/infantry/magazine/issues/2017/APR-JUN/pdf/3)Marcum-Enablers.pdf. Cabe observar que, por vezes, os capacitadores podem ser entendidos como “multiplicadores do poder de combate”, por vezes, como “elementos em reforço”. Meios associados à Inteligência, Operações Psicológicas, Assuntos Civis, Operações Especiais, Guerra Eletrônica, Guerra Cibernética, dentre outros, são, frequentemente, citados como capacitadores, segundo uma perspectiva mais ortodoxa das operações de combate em larga escala.]

No entanto, existe uma lacuna na abordagem do Exército dos EUA quanto ao aprestamento das BCT que requer maior ênfase. Essa lacuna se refere aos inúmeros capacitadores* dos escalões acima de brigada (echelons above brigade — EAB), que são organizados por tarefas em uma BCT tanto no CTC quanto no desdobramento para o combate. Esses elementos capacitadores, que, no total, equivalem a um batalhão adicional inteiro (mais de 500 soldados), são preparados para o desdobramento individualmente pelos seus batalhões EAB e brigadas, mas não têm nenhum vínculo habitual com as BCT que eles vão apoiar. As BCT e os capacitadores incorporados se reúnem no CTC, treinam juntos durante um mês e, em seguida, retornam para suas unidades enquadrantes, espalhadas por todas as partes dos EUA. A BCT não desenvolve a prontidão com seus capacitadores antes do rodízio no CTC, nem os mantém durante o período pós-CTC, quando há uma maior probabilidade de emprego em uma crise ou contingência.

Este artigo destaca os desafios impostos pela atual abordagem em relação à integração de capacitadores nas BCT, identifica as medidas que elas podem implementar atualmente e oferece recomendações institucionais para um alinhamento formal e regional de capacitadores procedentes de todos os componentes da Força (a “Força Total”, ou seja, ativa, reserva e Guarda Nacional) com as BCT e divisões. Esse alinhamento deve estar vinculado aos rodízios nos CTC, levando em consideração as unidades selecionadas para serem desdobradas juntas em planos de contingência. Com o estabelecimento de relacionamentos habituais e a experiência compartilhada em uma “prova decisiva” no CTC, os comandantes poderão desenvolver e manter a prontidão das BCT e seus capacitadores.

A Experiência no Centro de Treinamento para as BCT e seus Capacitadores

[N. do T.:

**Segundo a Publicação Doutrinária do Exército 3-0, Operações (ADP 3-0, Operations), a ação decisiva consiste na “execução contínua e simultânea de operações ofensivas, defensivas e de estabilização ou de apoio defensivo de tarefas de autoridades civis”. Veja Army Doctrine Publication (ADP) 3-0, Operations (Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2019), 3-1, https://armypubs.army.mil/epubs/DR_pubs/DR_a/pdf/web/ARN18010_ADP%203-0%20FINAL%20WEB.pdf.]

***Comando de Missão é a abordagem do Exército dos EUA para a função de combate Comando e Controle.]

Os comandantes de BCT e seus estados-maiores se dedicam a desenvolver a prontidão para a ação decisiva** antes do rodízio em um CTC. As sequências de treinamentos são cuidadosamente administradas, os requisitos pré-CTC são cumpridos e os nós de comando de missão*** são validados, entre outras ações. As divisões certificam suas BCT em relação às tarefas de ação decisiva e administram, rigorosamente, seus equipamentos, efetivo e estado de manutenção, a fim de garantir que as grandes unidades possam tirar máximo proveito de sua única experiência de “prova de fogo” a cada dois anos (ou a cada cinco, no caso das BCT de Guarda Nacional). Quando os veículos começam a ser embarcados nos vagões ferroviários antes da viagem para o centro de treinamento, os elementos orgânicos de uma BCT estão organizados por tarefas e preparados para a execução de suas missões.

Em seguida, chegam os capacitadores EAB. Convergindo para a BCT alguns dias antes do início de um rodízio no centro de treinamento, tropas de valor fração a subunidade chegam com um conjunto de capacidades e necessidades que podem ou não ser plenamente compreendidas. Elas vêm em grande número de todas as partes dos EUA (muitas vezes, 20 ou mais organizações separadas). Não é incomum que uma tropa valor pelotão ou companhia sediada em uma costa apoie uma BCT baseada na costa oposta, a milhares de quilômetros de distância. Além disso, elas são provenientes de todos os componentes da Força. Como 75% dos capacitadores do Exército dos EUA pertencem à reserva ou Guarda Nacional, é provável que a força-tarefa BCT participe de uma ação decisiva com elementos oriundos de todos os componentes da Força1.

Embora os comandantes das BCT sejam, normalmente, notificados sobre os capacitadores que receberão com até seis meses de antecedência, vários fatores se conjugam para fazer com que uma integração significativa na BCT seja, na melhor das hipóteses, incompleta. Com os elementos capacitadores dispersos por todo o país, não há oportunidades para que eles treinem juntos. O máximo que se consegue, muitas vezes, é a realização de teleconferências para acompanhar os cronogramas de movimentação e manutenção e talvez uma oportunidade de planejamento compartilhado antes do rodízio propriamente dito. Como as tropas da ativa, Guarda Nacional e reserva do Exército que participam juntas do rodízio provavelmente não têm nenhuma relação habitual entre si ou com a BCT apoiada, pode ser um desafio reconhecer todos os rostos e nomes dos comandantes durante as fases de recepção, concentração, movimento para as linhas de frente e integração no CTC.

Por serem treinados e certificados quanto às suas capacidades especializadas separadamente das formações de manobra, os capacitadores dos escalões acima de brigada desconhecem, muitas vezes, os procedimentos operacionais padrão da BCT apoiada, não tendo tido, provavelmente, a oportunidade de se integrarem a um elemento de manobra.

A experiência é igualmente desconcertante para os capacitadores incorporados. Por serem treinados e certificados quanto às suas capacidades especializadas separadamente das formações de manobra, os capacitadores EAB desconhecem, muitas vezes, os procedimentos operacionais padrão (POP) da BCT apoiada, não tendo tido, provavelmente, a oportunidade de se integrarem a um elemento de manobra. Têm equipamentos e sistemas de comunicação diferentes dos utilizados na BCT à qual serão integrados e, dependendo de sua sequência de treinamentos, podem estar em um nível inferior de prontidão que a grande unidade apoiada. As seções de estado-maior da BCT não têm experiência em planejar a utilização de elementos capacitadores, e seus pelotões, companhias e batalhões de manobra têm pouca ou nenhuma experiência em seu emprego. Além disso, os requisitos de manutenção e apoio relacionados aos equipamentos dos capacitadores, como a viatura blindada de transporte de pessoal M113 e a viatura blindada lançadora de ponte, são, muitas vezes, completamente diferentes dos requisitos da BCT que eles possam ser incumbidos de apoiar. No entanto, a manutenção e o apoio são de responsabilidade da BCT.

O batalhão de engenharia de brigada (brigade engineer battalion — BEB) é a unidade encarregada de integrar e assegurar a utilização adequada dos capacitadores que são introduzidos na BCT. Embora os comandantes de BEB e seus estados-maiores entendam que a integração e a utilização eficaz de capacitadores consistem em sua operação decisiva, essas unidades já são responsáveis por garantir que os capacitadores orgânicos da brigada sejam utilizados adequadamente. Considerando o fato de que o BEB mais do que dobra de tamanho durante um rodízio no CTC, transformando-se, geralmente, em uma força-tarefa de 1.000 a 1.200 integrantes e pelo menos 20 unidades subordinadas, manter o controle sobre todos os capacitadores na área de operações da BCT já passa a ser um desafio considerável, quanto mais administrar a integração eficaz de capacitadores em elementos com os quais eles nunca tenham treinado.

Embora o sucesso na integração e utilização de capacitadores varie dependendo da organização, é possível identificar uma série de problemas sistêmicos, conforme registrados por equipes de observadores-controladores em rodízios no CTC, os quais afetam o desempenho da BCT:

  • Os estados-maiores de brigada e batalhão de manobra têm dificuldades para planejar a utilização de capacitadores devido à falta de conhecimento de suas capacidades e limitações.
  • Com frequência, os capacitadores são empregados indevidamente ou deixados na área de retaguarda pelos elementos de manobra, devido, em grande parte, à falta de conhecimento de como devem ser empregados e à inexistência de relacionamentos pessoais entre os comandantes de manobra e os capacitadores que os apoiam.
  • Quiçá mais importante, os elementos de manobra muitas vezes esgotam sua capacidade para continuar sua forma de operação antes de cumprirem as missões que lhes foram atribuídas, porque os capacitadores corretos (seja engenharia, defesa química, inteligência militar, polícia do Exército, comunicações ou assuntos civis) não estavam presentes ou não foram utilizados de modo eficaz em um ponto decisivo da operação.

Embora essas lições sejam registradas em análises pós-ação e a integração de capacitadores seja inserida nos POP pós-CTC em todos os escalões, quando os trens são recarregados, a BCT retorna à sua sede e os capacitadores às suas bases de origem, espalhadas por todo o país. A prontidão compartilhada, adquirida por meio do treinamento de uma BCT com os capacitadores recebidos e de seu aprendizado com eles no CTC, se dilui, e as organizações retomam suas sequências de treinamento compartimentadas.

Integrante da 44a Companhia DQBRNE borrifa água em outro soldado, que foi exposto a um agente químico simulado em um posto de descontaminação durante um rodízio de treinamento no Centro Nacional de Treinamento, Forte Irwin, Califórnia, 13 Mar 2019. (Foto de Clemens Gaines, Com Soc, 20o Comando DQBRNE)

Os Impactos

A inclusão de elementos capacitadores na formação da BCT será ineficaz, a menos que suas capacidades sejam compreendidas pelos decisores responsáveis por seu emprego, ou seja, os comandantes e planejadores de manobra nos escalões companhia a brigada. Por exemplo, os rodízios de ação decisiva no Centro Nacional de Treinamento (National Training Center — NTC) incluem, regularmente, ataques químicos com agentes persistentes ou não persistentes, os quais requerem o estabelecimento de um posto de descontaminação completa. As BCT podem ter até quatro tipos de pelotões de defesa química incorporados para executar essa missão. No entanto, a BCT, normalmente, só tem experiência de treinamento com, no máximo, um desses tipos de formação durante a fase de preparação na sede. Assim, os planejadores de manobra e especialistas em logística não sabem bem quanto tempo leva uma missão de descontaminação ou quais recursos devem estar disponíveis para executá-la.

Como os relacionamentos entre os capacitadores EAB e as BCT são informais no âmbito da sede, a inclusão dos primeiros nos treinamentos destas últimas é ocasional, dependendo, muitas vezes, da iniciativa das pessoas envolvidas. Para um grupo de comandantes, a integração de capacitadores EAB pode ser uma prioridade, enquanto outros podem ter uma abordagem diferente. O resultado da falta de formalidade quanto aos relacionamentos no âmbito da sede é que os elementos orgânicos costumam treinar de modo integrado, enquanto os elementos EAB o fazem em seus respectivos “compartimentos” EAB. Eles não treinam, realmente, da forma que lutariam em um CTC ou em combate até que participem de um rodízio.

Embora os elementos capacitadores e as BCT se beneficiem de treinarem juntos no CTC, existe um custo de oportunidade quando a construção de relacionamentos com capacitadores consiste em uma experiência intensa de treinamento, como a realizada no NTC, seguida da dissolução da equipe. Além disso, como as BCT costumam treinar com seus componentes orgânicos na sede, há uma curva de aprendizagem acentuada nos CTC, que priva os batalhões de manobra, BEB e estado-maior da brigada de oportunidades de treinamento para aprimorar a forma pela qual eles integram e empregam os capacitadores.

Quiçá mais importante, há um deficiência de longo prazo em termos da consciência da BCT e da força de manobra quanto aos requisitos e limitações dos capacitadores EAB. Como eles não treinam juntos, a diferença em capacidades como mobilidade, comunicações e treinamento simplesmente não é priorizada nas diretrizes de treinamento das divisões e corpos de exército para as BCT. Os comandantes de BCT notam que há um problema quando estão em um CTC, mas isso passa rapidamente para um segundo plano após a desmobilização para a sede, quando se retoma o foco no adestramento orgânico.

Integrantes da Companhia A, 23o Batalhão de Engenharia de Brigada, cavam um fosso anticarro para desviar as forças embarcadas inimigas para a principal área de engajamento defensivo, Forte Irwin, Califórnia, 20 Abr 2018. (Foto do Centro Nacional de Treinamento, Grupo de Operações, Equipe de Treinamento de Apoio à Manobra)

Desafios para a Integração de Capacitadores

Se a integração de capacitadores representa tamanho problema, por que eles já não estão habitualmente alinhados com as BCT? Essa é uma boa pergunta, considerando os desafios descritos anteriormente, que gira em torno de por que o Exército dos EUA continua a administrar os capacitadores da mesma maneira.

A primeira parte da resposta está relacionada à abordagem do Exército dos EUA quanto à formação de elementos disponíveis para o desdobramento que sejam adaptados para atender aos requisitos de uma determinada crise ou contingência. Treinar os capacitadores separadamente e incorporá-los às BCT antes de um rodízio em CTC ou do emprego em combate têm por objetivo: (1) garantir que capacitadores menos comuns sejam treinados de forma eficaz na sede; (2) permitir a distribuição flexível de capacidades EAB às BCT com base nos requisitos da missão; e (3) facilitar a integração de elementos da reserva e da Guarda Nacional nas BCT em conformidade com a Política de “Força Total”, ou seja de todos os componentes do Exército2.

Ao contrário da estrutura divisionária que o precedeu, o conceito de força modular do Exército dos EUA depende da capacidade das BCT para receber, integrar e utilizar capacitadores. Mesmo com a decisão do Exército dos EUA de reestruturar a força (BCT 2020) para incluir um terceiro batalhão de manobra e estabelecer BEB com capacidades adicionais, a concepção de força para as BCT não incluiu, propositadamente, todas as capacidades que seriam necessárias em uma ação decisiva3.

A segunda parte da resposta está ligada à disponibilidade dos próprios capacitadores e a seus cronogramas de aprestamento. Considerando que 75% das unidades capacitadoras do Exército dos EUA — sejam de apoio à manobra ou sustentação logística — pertencem à reserva ou à Guarda Nacional, elas estão fisicamente dispersas por todo o país. Além disso, as unidades da reserva e da Guarda Nacional executam o aprestamento com base em um modelo quinquenal, com a realização do rodízio em um CTC e desdobramento subsequente no quarto ou quinto ano de seu respectivo ciclo de prontidão. Isso significa que, do total de capacitadores de todos os componentes da Força, apenas uma parcela dos existentes na reserva ou Guarda Nacional está disponível em um dado momento.

Outro fator que dificulta o estabelecimento de um alinhamento habitual é o desafio de prever o nível de prontidão e a disponibilidade de uma multiplicidade de elementos capacitadores pequenos, aptos a serem desdobrados. Diferentemente das BCT, os elementos EAB podem ser desdobrados até os níveis de companhia, pelotão e, muitas vezes, esquadra. Como eles são desdobrados de forma independente, dentro de um único batalhão EAB, pode haver vários elementos com diferentes níveis de prontidão.

A forma pela qual os planejadores do Comando de Forças (Forces Command — FORSCOM) e dos CTC criam os rodízios também afeta o problema. Os CTC, geralmente, identificam os requisitos relativos a capacitadores para um determinado rodízio cerca de dois anos antes da execução. Nem o CTC nem o FORSCOM estão sujeitos, atualmente, a uma exigência de alinhar regionalmente os capacitadores com as BCT e, por isso, não o fazem. Quando se acrescentam requisitos imprevistos nos CTC, como um rodízio focado em ataques químicos que requeira a incorporação de mais elementos de defesa química a uma BCT no último momento, a identificação de fontes de capacitadores para o adestramento se transforma em um “jogo dos copos”. Nesse caso, são designados elementos disponíveis e prontos, em lugar de outros que talvez pudessem participar de treinamentos com uma BCT na sede ou ser desdobrados com elas em uma operação de contingência.

O fator final e quiçá mais importante é a inércia. Como os capacitadores não estão habitualmente alinhados e só são designados para os CTC e desdobrados com base em sua prontidão em um dado momento, os ciclos de aprestamento das tropas em uma determinada área também não estão alinhados. A adoção de uma nova abordagem exigiria um investimento prolongado de energia institucional e a realização de uma previsão com anos de antecedência à execução do rodízio no CTC no caso de elementos da reserva e da Guarda Nacional. Esse tipo de mudança demandaria grande esforço e o apoio do comando, e seria necessário começar pelos comandantes de manobra nos escalões brigada, divisão e corpo de exército, que direcionam o diálogo sobre prontidão da Força.

O Que se Pode Fazer Hoje para Melhorar a Integração de Capacitadores

As BCT e seus batalhões subordinados precisam reconhecer que eles combaterão como uma força-tarefa, na qual existirão capacitadores EAB em sua composição de meios, seja em um rodízio de CTC ou em combate. Esses elementos capacitadores não são complementos de última hora. Eles fornecem capacidades que o elemento de manobra não tem organicamente e que são necessárias para a consecução da missão.

Figura 1. Exemplo de Organização por Tarefas de Capacitadores. (Figura cedida pelo 23o Batalhão de Engenharia de Brigada,1-2 BCT Stryker, Base Conjunta de Lewis-McChord)

Os comandantes, entendendo esse fato, devem exigir que seus estados-maiores e comandos subordinados se instruam quanto às capacidades, limitações e requisitos de apoio dos capacitadores. As unidades devem planejar o uso de capacitadores durante os exercícios de estado-maior e de posto de comando em todos os escalões. A elaboração de uma organização por tarefas padronizada de capacitadores para a ofensiva e defensiva (veja a figura 1), a criação de modelos doutrinários para seu emprego (veja a figura 2) e a realização de condutas de combate para operações com uso intensivo de capacitadores são medidas importantes que as BCT podem tomar para desenvolver a proficiência junto a eles, acelerar o planejamento e possibilitar um entendimento compartilhado com as unidades subordinadas.

Figura 2. Exemplo de Modelo Doutrinário. (Figura cedida pelo 23o Batalhão de Engenharia de Brigada,1-2 BCT Stryker, Base Conjunta de Lewis-McChord)

Os comandantes de manobra, do escalão pelotão a brigada, precisam de práticas repetidas tanto no planejamento quanto na utilização de capacitadores antes de chegarem a um CTC. O momento errado para começar a descobrir como usar capacitadores como engenharia, defesa química, assuntos civis e desativação de artefatos explosivos é quando eles chegam, imediatamente antes da execução da missão. O que é importante, o BEB também precisa de práticas repetidas em integrar e, em seguida, fornecer comando de missão para capacitadores vindos de fora da BCT — quanto maior o número de práticas, melhor.

Dada a realidade de que as BCT e seus batalhões subordinados provavelmente não conseguirão treinar com os capacitadores que os apoiarão antes de serem enviados para um CTC ou durante o combate, deve haver um sistema planejado para estabelecer relacionamentos com estes últimos e integrá-los na formação. Embora listas de conferência possam ser ferramentas úteis, as unidades devem tratar a integração de capacitadores como uma tarefa tática que precisa ser praticada durante o treinamento na sede. As BCT devem estabelecer contato com as unidades capacitadoras em suas respectivas sedes, estabelecer relacionamentos e integrar seus elementos de forma deliberada na sequência de treinamentos de manobra.

As BCT também precisam assumir os desafios de prontidão relacionados aos elementos capacitadores que elas receberão com relativamente pouca antecedência e se preparar para requisitos de apoio adicionais quando eles chegarem. Os equipamentos, capacidades de comunicação e prontidão em termos de treinamento de cada um deles serão diferentes. Em muitos casos, isso significa que haverá diferentes requisitos de manutenção e suprimento, que não serão facilmente resolvidos nos últimos dias antes da execução da missão. Para minimizar a fricção causada pela chegada de várias unidades com requisitos de apoio e estados de prontidão discrepantes, as BCT devem estabelecer contato cedo e com frequência com seus capacitadores para resolver problemas bem antes da organização por tarefas formal. Essa é uma melhor prática já recomendada pelos CTC.

Recomendações para a Mudança Institucional

Embora necessárias, as medidas imediatas destacadas acima são insuficientes. Há uma necessidade predominante de gerar uma prontidão contínua e de todos os componentes da Força no âmbito das BCT. As recomendações institucionais apresentadas adiante podem ser implementadas gradualmente, mas devem ser instituídas formalmente, vinculadas aos rodízios nos CTC e transmitidas pelo alto-comando do Exército para realmente terem impacto.

Identificar o conjunto disponível de capacitadores EAB da ativa e da reserva em uma região específica e alinhá-los formalmente com as BCT para os rodízios nos CTC e desdobramentos. Dentro de uma região específica (Pacífico-Noroeste, por exemplo), há, normalmente, suficientes unidades capacitadoras da ativa, Guarda Nacional e reserva para apoiar o treinamento das BCT, rodízios nos CTC e desdobramentos com o objetivo de atender a requisitos de planos de contingência. O problema é que não há relacionamentos formais para levá-los a alinhar suas sequências de treinamentos. Os estados-maiores nos escalões divisão e corpo de exército podem e vão alinhar o treinamento para ajudar as BCT a integrarem essas capacidades-chave, se dispuserem da autoridade e de recursos financeiros. Deveria ser uma exigência que os planejadores do FORSCOM e dos CTC levassem em conta o alinhamento regional ao efetuarem o planejamento tanto para os rodízios de treinamento quanto para contingências. O FORSCOM também deve considerar, seriamente, a possibilidade de exigir que os capacitadores participem dos exercícios de certificação pré-CTC das BCT às quais eles estejam alinhados.

Integrar capacitadores de forma planejada no treinamento orgânico na sede da BCT. Considerando o componente da ativa apenas, há, geralmente, capacitadores suficientes para permitir que as BCT incluam sua utilização em várias práticas. Isso acontece, às vezes, de modo informal, mas raramente resulta de uma diretriz advinda de comandos superiores. Como os elementos EAB consistem, normalmente, em meios de corpo de exército, diretrizes formais de treinamento, que determinassem a integração de capacitadores no treinamento de sede, precisariam vir desse escalão. Isso poderia ser padronizado na forma de relacionamentos habituais.

[N. do T.:

****O termo Time-Phased Force and Deployment Data (TPFDD) se refere aos “dados ao longo do tempo sobre a força, cargas externas às unidades e pessoal combinados com os dados de movimentação para o plano de operações, ordem de operações ou rodízio de forças em curso”. Veja Office of the Joint Chiefs of Staff, DOD Dictionary of Military and Associated Terms (Washington, DC: U.S. GPO, Jun. 2020), p. 218, https://www.jcs.mil/Portals/36/Documents/Doctrine/pubs/dictionary.pdf.]

Alinhar a construção de dados cronológicos de forças e desdobramento**** (time-phased force and deployment data —TPFDD) para os planos de operações em relação ao conjunto regional de forças da ativa e reserva. Uma vez que conjuntos regionais de forças fossem gerados e as unidades estivessem mantendo a prontidão no nível das BCT, a etapa lógica seguinte seria alinhar as BCT e os capacitadores com base nos planos de operações. Isso também consolidaria ainda mais e formalizaria os relacionamentos entre as BCT e os capacitadores regionalmente.

Redirecionar o foco da parceria entre a ativa e a reserva para a força-tarefa da BCT na ação decisiva. Relacionamentos mais formais entre BCT e unidades capacitadoras oferecem uma oportunidade significativa. Atualmente, as parcerias entre ativa e reserva se concentram, predominantemente, nos níveis de BCT ou de EAB. Embora seja útil estabelecer relacionamentos com uma possível unidade adjacente, é, provavelmente, mais importante que uma BCT integre os capacitadores da reserva que serão incluídos em sua força-tarefa em combate.

Formalizar o relacionamento entre os BEB dentro de cada BCT e unidades em parcerias habituais. O BEB pode e deve continuar a ser o foco da integração de capacitadores na BCT, podendo assumir a liderança na implementação do programa de parceria entre todos os componentes da Força até os escalões mais baixos. Os comandantes de BEB devem ser responsáveis por manter relacionamentos com as unidades da reserva com as quais eles serão enviados para um rodízio em CTC ou para o combate, além de coordenar sua integração no treinamento da BCT.

Inserir capacitadores nas estratégias de modernização das BCT. Conforme o Exército dos EUA se moderniza, vigorosamente, para enfrentar o desafio representado por adversários com poder de combate quase equiparado, as BCT devem executar seu treinamento e modernização com os capacitadores que as apoiarão. Já existe uma diferença significativa entre as BCT e formações capacitadoras em relação a equipamentos, a qual só aumentará, caso não seja abordada durante o processo de modernização do Exército. O desempenho geral de uma BCT em combate não deve ser prejudicado porque seus capacitadores estão operando em sistemas antiquados de comando de missão e se movimentando em sistemas incapazes de acompanhar o ritmo das operações de combate. Alinhar o treinamento e modernização das BCT e capacitadores incorporados seria coerente com a doutrina do Exército, que afirma que “as unidades treinam para combater e vencer como equipes coesas e eficazes” em “condições desafiadoras e realistas, que reproduzem de perto um ambiente operacional”4.

Conclusão

O Exército treina e certifica unidades de manobra em todos os escalões por reconhecer que, fundamentalmente, o todo é mais do que a soma de suas partes. Uma BCT treinada é mais do que simplesmente um grupo de batalhões treinados. Em lugar disso, é uma equipe integrada, capaz de se organizar por tarefas para fins específicos e executar missões previstas e imprevistas com eficiência.

Da mesma forma, uma BCT treinada e pronta para a ação decisiva é mais do que uma grande unidade orgânica treinada com um bando de capacitadores organizados por tarefas que foram adestrados separadamente e nela incorporados imediatamente antes da execução da missão. Para que todos os elementos da equipe operem juntos de forma eficaz, ela deve ser capaz de organizar tarefas como uma unidade completa e incorporar capacitadores ao longo de toda a sequência de treinamentos.

Manter a abordagem atual em relação à integração de capacitadores gera o risco de que se repitam as difíceis lições aprendidas em todo rodízio de CTC durante os primeiros dias de um conflito futuro. Se isso ocorrer, o custo será em vidas de nossos soldados, e não apenas em termos de desperdício de tempo e de deficiências de treinamento. Com o estabelecimento de relacionamentos formais e regionais entre BCT e capacitadores, atrelados aos rodízios de CTC, o Exército dos EUA poderá desenvolver a prontidão constante de todos os componentes da Força, focada no BCT. Vale a pena o esforço.


Referências

  1. A análise destes dados estatísticos foi realizada pelo Centro de Excelência de Apoio à Manobra, no Forte Leonard Wood, Missouri. Considerando somente a engenharia, com base nas atualizações dos quadros de organização e dotação efetuadas em 2019, 50% da estrutura de força da engenharia pertence à Guarda Nacional, com 25% na reserva do Exército dos EUA e apenas 25% na ativa. Para muitas capacidades de apoio à manobra, a porcentagem é ainda maior. Por exemplo, 82% das unidades de assuntos civis e de operações de apoio à informação pertencem à reserva do Exército.
  2. John M. McHugh, Memorandum to Principal Officials of Headquarters, Department of the Army, “Army Directive 2012-08 (Army Total Force Policy)”, 4 Sept. 2012, acesso em 25 out. 2019, https://armypubs.army.mil/epubs/DR_pubs/DR_a/pdf/web/ad2012_08.pdf.
  3. Mark F. Cancian, “U.S. Military Forces in FY 2020” (relatório, Washington, DC: Center for Strategic and International Studies, Oct. 2019), acesso em 25 out. 2019, https://www.csis.org/analysis/us-military-forces-fy-2020-army.
  4. Army Doctrinal Publication 7-0, Training (Washington, DC: U.S. Government Printing Office, Aug. 2012 [obsoleto]), par. 1-4 e 1-5.

O Ten Cel Nicholas Melin, Exército dos EUA, comanda o 5o Batalhão, 1a Brigada de Assistência a Forças de Segurança. Concluiu o bacharelado pela Academia Militar dos EUA, o mestrado em Artes e Ciências Militares pelo U.S. Army Command and General Staff College, e o doutorado pela Oxford University. Comandou, anteriormente, o 23o Batalhão de Engenharia de Brigada, 1-2 BCT Stryker, na Base Conjunta de Lewis-McChord. Também serviu como assistente especial do 18o e 19o Chefes do Estado-Maior Conjunto, no Grupo de Estudos Estratégicos do Comandante do Exército dos EUA e como subcomandante operacional da 3a Brigada, 1a Divisão Blindada.

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Quarto Trimestre 2020