Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

A Criação de um Recurso

Ajudando o Exército do Comando Central dos EUA a Estabelecer um Programa de Coleta de Documentos Históricos

Michael Yarborough

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Historiador Richard E. Killblane entrevista o 1o Ten Matthew Beal durante a Operação Iraqi Freedom no Camp Speicher, Tikrit, Iraque, 19 Mar 07. (Foto por David S. Hanselman)

A história militar é uma forma do poder de combate. O registro e a leitura da história militar formam a base para o treinamento, espírito de corpo e o processo de tomada de decisão. Os benefícios advêm ao Exército em todos os escalões, desde soldados até comandantes superiores. Contudo, para o Exército beneficiar-se do estudo sobre o a sua própria história, as fontes primárias sobre o que ocorreu durante as operações de combate precisam ser coletadas.

Durante o verão de 2014, os Estados Unidos aumentaram a assistência militar ao governo iraquiano para lutar contra o Estado Islâmico (EI). Desde o início, o Comando Componente do Exército subordinado ao Comando Conjunto Central dos EUA (USARCENT) exerceu o papel principal no fornecimento dessa assistência militar. Em meados de agosto, o Gen Div James L. Terry, Comandante do USARCENT, pediu apoio ao Centro de História Militar do Exército dos EUA (CHM) para estabelecer um programa de coleta de documentos históricos para ajudar a preservar as experiências do comando. Em resposta, o CHM designou, temporariamente, dois dos seus historiadores civis (eu e Erik B. Villard) para estabelecer o referido programa de coleta que seria transferido, posteriormente, a um destacamento de história militar (MHD). Para cumprir essa missão, trabalhamos no quartel-general avançado do USARCENT, no Kuwait, entre 28 Ago e 3 Out de 2014. Conduzimos, também, o primeiro emprego em campanha da nova publicação doutrinária de história militar do Exército, que foi atualizada em junho de 2014, O Manual Técnico do Exército 1-20, As Operações de História Militar (ATP 1-20, Military History Operations)1.

Este artigo resume nossos esforços e discute alguns desafios que enfrentamos. Esperamos que nossas experiências sejam proveitosas para futuros historiadores, MHDs e militares designados, como encargo adicional, historiadores de unidade. Considerando as incertezas geopolíticas e as limitações orçamentárias atuais, é razoável supor que os historiadores do Exército possam ser novamente solicitados, com pouca antecedência, para ajudar a estabelecer um programa de coleta histórica para outro comando componente do Exército.

Os comandantes também devem achar este artigo interessante. Os programas de coleta de documentos são necessários porque durante tempos de guerra, os registros operacionais são considerados permanentes. A sua preservação é regulada por leis e consiste em uma responsabilidade legal do comandante. Um instrumento útil nesta tarefa é o Manual No 09-22, Guia do Comandante para Registros Operacionais e a Coleta de Dados: Táticas, Técnicas e Procedimentos (Handbook No. 09-22, Commander’s Guide to Operational Records and Data Collection: Tactics, Techniques, and Procedures), do Centro de Lições Aprendidas do Exército2.

Com base nas nossas experiências, podemos afirmar que o ATP 1-20 foi escrito de maneira clara e acessível e proporciona o modelo básico para a construção de um programa de coleta de documentos. Nosso rápido deslocamento para a área de operações (tínhamos menos de duas semanas de antecedência) nos impediu de participar do treinamento padrão de um destacamento de história militar. No entanto, nós conseguimos usar, com facilidade, o ATP 1-20 para orientar nossos esforços. Nós nos beneficiamos, também, do apoio do Centro de História Militar, da grande comunidade de história do Exército e do estado-maior do USARCENT. Finalmente, a familiaridade com a organização e a estrutura do Exército, a capacidade de operar como parte de um estado-maior e a proficiência nos sistemas de informações do Exército nos ajudaram a atingir nossos objetivos e superar obstáculos.

O Comando do Centro de História Militar nos enviou ao Kuwait com a missão de ajudar o USARCENT a registrar as suas experiências por meio da coleta de documentos e estabelecer procedimentos para um subsequente destacamento de história militar. Imediatamente depois de chegar ao Kuwait, encontramos-nos com Terry. Ele nos instruiu a salvar os principais documentos operacionais do USARCENT, para ajudar a registrar as lições aprendidas, escrever as narrativas históricas e facilitar o tratamento médico de militares no futuro3. Durante comissionamentos anteriores ao USARCENT, Terry tinha visto o comando expandir-se para satisfazer os requisitos das contingências (Operações Enduring Freedom e Iraqi Freedom) e, assim, ele sabia da importância de começar a preservação de documentos históricos durante as fases iniciais das operações. Agora que a luta contra o EI tem se tornado uma operação de larga escala (Operação Inherent Resolve) e apresenta todas as indicações de se tornar uma companha prolongada, as ações iniciais dele têm ajudado a garantir que as experiências do Exército sejam preservadas para a posterioridade.

Refinamos a orientação de Terry em quatro objetivos: (1) estabelecer procedimentos de coleta, (2) iniciar a coleta de documentos, (3) estabelecer procedimentos de coordenação com elementos-chave do estado-maior e (4) preparar um plano de transição para o destacamento de história militar. O cumprimento desses objetivos requeria, também, a resolução de uma variedade de questões, a maioria relacionada com viagens, acesso a computadores e redes e aspectos de segurança. Esses desafios eram parte do problema de operar em uma situação de guerra, mas teriam nos levados ao fracasso se não tivessem sido resolvidos.

Antecedentes

O USARCENT tem operado como o componente do Exército do Comando Conjunto Central dos EUA (USCENTCOM), desde 19824. A sua sede principal fica na Base da Força Aérea Shaw, na Carolina do Sul, mas também existe um quartel-general avançado, no Kuwait. A sua missão é proporcionar ao Comandante do Comando Conjunto do USCENTCOM meios de força terrestre e profundidade estratégica e estabelecer as condições para melhoria de segurança e estabilização regional. Os esforços do comando contribuem para garantir acessibilidade e desenvolver relações com nações da região5.

Durante a nossa missão, o USARCENT coordenou operações terrestres de assistência dos EUA à luta do Iraque contra o EI. Na época, o comando operava como um comando do componente terrestre das forças conjuntas, e depois como o comando do componente terrestre das forças da coalizão. Depois formou o núcleo da Força-Tarefa Conjunta Combinada-Operação Inherent Resolve, que, atualmente, é responsável pela liderança da coalização contra o EI6.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os historiadores do Exército e os destacamentos de história militar têm se desdobrado próximo aos comandos combatentes e às operações para ter o melhor acesso aos comandantes e documentos. Os destacamentos de história militar são unidades independentes, possuidoras de quadro de dotação de pessoal e material específico, que consistem de um oficial e um ou dois militares adicionais. Tipicamente, são empregados nos escalões exército de campanha, comando componente do Exército dos grandes comandos conjuntos regionais, corpo de exército e Divisão para “desempenhar a coleta direcionada de material histórico durante operações de combate e de contingência, para uso posterior no registro da História oficial. São treinados e equipados para coletar documentos e objetos históricos, conduzir entrevistas orais, fotografar ações e eventos e aconselhar unidades apoiadas sobre o planejamento e a condução de operações de coleta histórica”7.

Uma lição advinda das operações anteriores de coleta histórica das Forças Armadas é que elas não podem ser conduzidas de longe. Assim, nossa missão exigia uma visita ao Kuwait, onde a maioria do estado-maior principal do USARCENT estava localizada. Isso fez com que esse país fosse o lugar certo para trabalhar porque estava onde as decisões eram tomadas e os documentos principais eram gerados (embora muitos desses fossem arquivados digitalmente na Base da Força Aérea Shaw).
Para a nossa missão, estávamos subordinados ao subchefe de estado-maior, e fomos apoiados pelo secretário do estado-maior geral. Nossa localização física e organizacional, próxima ao comando superior, foi ideal porque ajudou no acesso ao estado-maior e na obtenção de recursos e apoio. Muitos historiadores do Exército sabem, por experiência própria, que outros arranjos, como subordinação à seção de relações públicas, tipicamente reduzem a eficácia dos programas de coleta histórica.

A Coleta Histórica em contraste com a Gestão de Registros

Antes de continuar, deve ser entendido que os historiadores do Exército não coletam registros oficiais, mas em vez disso, cópias. Embora o Centro de História Militar seja responsável pela “coleta, manutenção e produção de materiais originais e de publicações históricas disponíveis para o Exército”, ele não é um depósito de registros oficiais, e os documentos guardados são considerados cópias8. O mesmo se aplica aos documentos obtidos pelos historiadores de comando e pelos destacamentos de história militar. O ATP 1-20 declara nitidamente, “Os historiadores não são os gerentes de registros e não desempenham esses deveres. Os documentos e materiais históricos não constituem registros oficiais de comando ou de unidade, embora talvez incluam cópias de registros”9. Essas cópias são usadas para escrever histórias oficiais, como a série U.S. Army in World War II (“O Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial”, em tradução livre) do Centro de História Militar, conhecido como “The Green Books”, ou seja, “Os Livros Verdes”. Atualmente, a Agência de Gerenciamento e de Desclassificação de Registros do Exército é responsável pela administração de registros, como estabelecido pelo Regulamento do Exército 25-400-2, O Sistema de Administração de Informação e Registro do Exército (AR 25-400-2, Army Records Information Management System)10.

Uma caixa contém registros históricos das operações, entre 2006 e 2007, da 1a Divisão de Cavalaria no Iraque, que foram coletados pelo 90o Destacamento de História Militar. (Foto por Maj Glynn Garcia)

Infelizmente, o sistema de administração dos registros operacionais não funciona. As cópias dos registros oficiais coletadas pelos historiadores do Exército e dos destacamentos de história militar se constituem, frequentemente, nas únicas cópias preservadas dos registros operacionais em tempos de guerra. Os militares e veteranos usam esses registros para escrever histórias oficiais, documentar as lições aprendidas e ajudar a substanciar pedidos de benefícios assistenciais ou pensões.

A falência do programa de administração de registros do Exército ficou evidente, pela primeira vez, na sequência da Guerra do Golfo (1990-1991), quando pesquisadores que investigavam as enfermidades incomuns que afetavam militares que retornavam aos EUA não conseguiam localizar os documentos básicos que listavam onde as unidades estavam estacionadas no campo de batalha. Essa falência se origina na dissolução do escritório da ajudância geral, em 1986, e na transferência da responsabilidade pela administração de registros para o Subchefia do Estado-Maior de Gerenciamento de Informação e Comando dos Sistemas de Informação (Assistant Chief of Staff for Information Management and Information Systems Command — ACSIM), do Comando do Exército. Tradicionalmente, a ajudância geral era responsável pela administração de registros, mas, antes da década de 80, o campo de gerenciamento de informação “reconhecia pouca distinção entre comunicações e informação”11. Conforme a comunicação se tornou digital, o Exército transferiu a responsabilidade pela administração de dados veiculados nas redes para aqueles que gerenciavam as redes. Infelizmente, ficou provado ser difícil integrar a doutrina do gerenciamento de informação e da administração de registros. Além disso, o Exército eliminou muitos gerentes de registros treinados e mobilizáveis como resultado das mudanças de estrutura da Força que reequilibraram a relação “boca a cauda”, ou seja o número de combatentes contra o número de apoio. Os administradores de registros que permaneceram ficaram isolados das unidades que apoiavam, conforme as suas atividades foram consolidadas no escalão corpo de exército para cima.

Em 1986, O ACSIM herdou um esforço para substituir o Regulamento do Exército 340-18-1, Instruções para o Sistema de Arquivos Funcionais do Exército (AR 340-18-1, The Army Functional Files System General Provisions), atualmente revogado, que era o sistema de gerenciamento de registros emitidos em papel usado pelo Exército nos anos 60. Esse sistema tinha servido ao Exército razoavelmente bem, durante o Vietnã, e foi uma atualização do Sistema Decimal de Arquivos do Departamento de Guerra (War Department Decimal Filing System), que ajudou a preservar registros entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia. Os excelentes registros operacionais de todos esses conflitos estão disponíveis no Arquivo Nacional. O sucessor do AR 340-18-1 foi o AR 24-400-2, O Sistema Moderno de Registro do Exército (The Modern Army Recordkeeping System — MARKS), atualmente revogado12. Infelizmente, o MARKS foi deficientemente concebido e apenas funcionava bem nos níveis Departamento do Exército e dos grandes comandos do Exército. Não serviu bem as necessidades das unidades em campanha durante operações de combate.

A Coleção Histórica do Comando de Comunicações e Eletrônica (CECOM) está localizada no Gabinete Histórico do Campo de Provas de Aberdeen, Maryland, e consiste em documentos, fotografias, filmes, gravações (de áudio e vídeo) e diversas mídias obsoletas (e.g., disquetes, filmes de segurança, transparências e microfichas). Ainda, a coleção possui uma pequena biblioteca de referência de história militar (aproximadamente 2.000 volumes). (CECOM do Exército dos EUA)

Como, após a Guerra do Golfo, as unidades foram realocadas rapidamente e, em alguns casos, desativadas, o Comando de Sistemas de Informações do Exército dos EUA (U.S. Army Information Systems Command) promulgou uma série de instruções mal interpretadas e contraditórias que conduziram as unidades em campanha a ignorar as instruções do MARKS e submeter registros diretamente a ele. Essa confusão fez com que muitos dos registros operacionais da Guerra do Golfo fossem arquivados inapropriadamente, armazenados no lugar errado ou simplesmente nunca enviados para serem arquivados. A recuperação dos registros relevantes necessários aos pesquisadores da Guerra do Golfo exigiu um esforço maciço nos anos 90, direcionado pelo Presidente Bill Clinton e pelo Congresso e liderado pelo Centro de História Militar13.

A transição continuada do Exército para sistemas digitais apenas tem agravado e revelado as deficiências atuais na administração de registros. Desde o início da Guerra Global contra o Terrorismo, em 2001, muitos registros dos períodos de combates foram irrecuperavelmente perdidos devido à facilidade de sobrescrever os documentos eletrônicos, ao trabalho de limpeza dos discos rígidos realizados pelas unidades antes de retornar dos desdobramentos e, em geral, às práticas deficientes na administração de registros. No entanto, durante a Guerra do Golfo e as operações conduzidas desde 2001, os historiadores desdobrados junto aos comandos combatentes e os destacamentos de história militar têm salvado cópias de muitos documentos importantes. Hoje, cópias digitais e em papel de registros da Guerra Global contra o Terrorismo são mantidas no Centro de História Militar. Essas incluem cópias de documentos das Operações Enduring Freedom (Afeganistão), Iraqi Freedom, New Dawn, Freedom’s Sentinel e Inherent Resolve. Embora ainda estejam sendo acrescentados muitos itens ao arquivo do CHM, a Administração dos Arquivos e Registros Nacionais e o Departamento de Estado já o têm caracterizado como um “tesouro nacional”. No devido tempo, ele será usado para ajudar a escrever a História oficial do Exército sobre a Guerra Global contra o Terrorismo14.

Objetivos e Realizações

A doutrina do Exército sobre as operações de coleta histórica em campanha é abordada no terceiro capítulo da ATP 1-20, “Organização para as Operações de Coleta Histórica em Campanha”. Essa publicação doutrinária estabelece a existência de seções de história agregadas ao comando em todos os escalões de Força, além de outras organizações associadas com a coleta histórica em campanha do Exército, como os destacamentos de história militar. Eu e Erik Villard fomos destacados para a missão como historiadores independentes, com nossos objetivos e ordens iniciais determinados pelo Centro de História Militar. Uma vez no Kuwait, esses objetivos e ordens foram refinados com base nas discussões com o comando do USARCENT e nas orientações encontradas na ATP 1-2015. Como mencionado anteriormente, nossos quatro objetivos eram estabelecer procedimentos de coleta, iniciar a coleta de documentos, estabelecer procedimentos de coordenação com principais integrantes do estado-maior e preparar um plano de transição para o destacamento de história militar.

Estabelecer procedimentos de coleta. O estabelecimento de procedimentos de coleta era nosso objetivo mais importante porque orientava todos os nossos esforços. Isso envolveu a produção de um plano de coleta e a preparação de uma ordem fragmentária promulgada pelo USARCENT. Redigimos o plano de coleta primeiro, desde que “o plano de coleta é o cerne de qualquer plano ou ordem de coleta histórica em campanha”16. Baseamos isso em discussões com o comando do USARCENT, observações iniciais, orientações existentes na ATP 1-20 e em conferências com o Centro de História Militar. O plano continha uma declaração de objetivos e intenções, tarefas de coleta, métodos de coleta, tipos de documentos históricos a serem coletados, prioridades de coleta, instruções de disposição e os produtos finais devidos ao USARCENT.

Para notificar formalmente o estado-maior do USARCENT sobre a nossa missão, objetivos e necessidades (e os do subsequente destacamento de história militar), precisávamos de uma ordem fragmentária17. Isso podia ter sido feito como um anexo a uma ordem de operações, mas o estado-maior do USARCENT queria uma ordem fragmentária. Fizemos um rascunho básico da ordem e a passamos para o estado-maior, para comentários. Trabalhamos com os oficiais da seção de operações do comando, para formatar e publicar o documento. O processo de expedição da ordem levou várias semanas e exigiu nossa participação ativa por todo o processo de estado-maior, mas foi nossa realização singular mais importante, porque estabeleceu a base para nossos esforços e os do subsequente destacamento de história militar.

Imediatamente após a chegada, marcamos visitas aos gabinetes dos oficiais em cargos de chefia do USARCENT, a maioria dos quais estava no Kuwait. Encontramos não apenas com Terry, mas, também, com o subchefe de estado-maior e os principais assessores do comando (e.g., o Chefe da 3a Seção do estado-maior). O subchefe de estado-maior nos informou sobre as atividades recentes do comando e nos proporcionou orientação geral sobre como desenvolver o cumprimento da nossa missão. Durante visitas aos gabinetes de outros integrantes do estado-maior, explicamos nossa missão, perguntamos onde podíamos localizar os tipos de documentos que precisávamos coletar e delineamos nossas necessidades. Todos os integrantes do Estado-maior do USARCENT entenderam a importância de preservar os registros operacionais para a posterioridade. Por meio dessas visitas, obtivemos rapidamente conhecimento da situação, refinamos o plano de coleta e estabelecemos relações pessoais com indivíduos que ajudariam a abrir portas para nós. A importância de criar redes de comunicação e de ser amigável não pode ser subestimada porque, de outra forma, teríamos ficado isolados e ineficazes. As visitas foram, também, um uso produtivo do tempo enquanto esperávamos acesso à rede. A participação em reuniões rotineiras e atividades sociais, também, nos capacitou a conhecer o estado-maior do comando em ambientes mais informais18.

Iniciar a coleta de documentos. Uma vez que tínhamos conhecido os oficiais em cargos de chefia do USARCENT, redigido um plano de coleta e obtido acesso à rede (o que levou aproximadamente uma semana), a coleta de documentos começou de verdade. No total, coletamos mais de 70 gigabytes de documentos digitais (a maioria tinha credencial de segurança “SECRETO”). Isso estabeleceu uma base sobre a qual o destacamento de história militar continuou a trabalhar. Nossa coleta se concentrava nas operações do USARCENT contra o EI, na remoção de equipamento do Afeganistão e nas atividades por toda a área de responsabilidade do Comando Conjunto Central dos EUA (USCENTCOM). Coletamos informações do portal da Internet do comando (SharePoint), da unidade compartilhada da rede e das listas de endereços eletrônicos. Coletamos slides de briefings, ordens (e.g., ordens de operações, ordens fragmentárias e ordens de execução), atualizações operacionais, mensagens, solicitações de reforços, relatórios, listas de pessoal-chave, documentos de informação, análises pós-ação, mapas e fotografias19.

A coleta de documentos digitais é um processo manual moroso que exige a análise de milhares de registros individuais e a decisão sobre se deve acrescentá-los à coleção. Considerando que estávamos estabelecendo uma base para a coleção que os destacamentos de história militar continuariam a construir, passamos muito tempo explorando o portal SharePoint e as unidades compartilhadas do USARCENT, buscando por documentos relevantes e reconstruindo a estrutura de arquivos e metadados. O acesso às listas de endereços eletrônicos fez com que a coleta se tornasse mais fácil.

Para ajudar a montar a coleção e lembrar onde, quando, com qual frequência e quais tipos de documentos a coletar, criamos uma matriz simples em Microsoft Excel. Considerando que o portal e a unidade compartilhada eram imensos, isso nos permitiu montar a coleção metodicamente e evitar a duplicação. A matriz da coleção também nos ajudou a identificar e priorizar locais para revisitar, conforme novos documentos fossem gerados. A tabela ilustra os campos básicos de metadados como títulos de colunas e dados da amostra por três pastas, ou localizações, listados em linhas individuais (o número real seria muito mais alto).

Tabela. Exemplo da Matriz Básica de Coleta (Gráfico pelo autor)

Uma questão metodológica que os historiadores e os destacamentos de história militar do Exército enfrentam é se deve manter a estrutura organizacional original de documentos ou reorganizá-los em coleções específicas. Considerando que os esforços de coleta frequentemente reúnem um grande volume de documentos em um breve período de tempo, a metodologia precisa ser simples e flexível. Assim, seguimos a rotina usada pela maioria dos destacamentos de história militar, que é um método híbrido de manter a integridade original de documentos, mas, também, de reorganizar os documentos relevantes juntos. Reorganizamos nossa coleção, primeiro pelo comando que gerou o documento, depois pelo tipo (e.g., todas as ordens fragmentárias de um comando foram agrupadas juntas) ou pela seção de estado-maior que produziu o documento.

Estabelecer procedimentos de coordenação. A diretriz final da nossa coleção exigia o envio de cópias ao Centro de História Militar e ao USARCENT20. O procedimento padrão exige que documentos sejam salvos em mídia externa (e.g., discos rígidos ou DVD) e enviados por meio de correio oficial21. O envio da coleção pelo correio, em vez de transferir os dados por uma conexão da rede, é executado por várias razões. Primeiro, há o volume de dados. Coletamos 70 gigabytes em cinco semanas, quando um destacamento de história militar típico coleta essa quantidade muitas vezes, durante um desdobramento de nove ou doze meses. Segundo, há problemas técnicos fora do controle do historiador: a largura de banda das redes do Exército é limitada, a transferência pelos domínios de rede do Exército é difícil e há limitações de infraestrutura no Centro de História Militar. No entanto, o envio de dados pelo correio criou suas próprias dificuldades e exigiu coordenação estreita com o oficial de segurança, a seção de segurança de informação e a agência de correio oficial para garantir que atendêssemos os requisitos de segurança e de garantia da informação.

Preparar um plano de transição. Finalmente, preparamos um plano de transição para o 161o Destacamento de História Militar (Guarda Nacional do Exército do Estado da Geórgia). Estavamos esperando conduzir uma substituição em posição, no início de outubro de 2014, mas complicações imprevistas deram indícios que eles não chegariam até janeiro de 2015. Portanto, preparamos um livro de continuidade, desativamos o esforço de coleta e fizemos um briefing com o estado-maior do USARCENT. O livro de continuidade listava informações sobre referências básicas, como localizações de pastas principais da rede, endereços de e-mail e pontos de contato. Da mesma forma, continha informação sobre nossas atividades de coleta e conselhos para viagens, procedimentos de chegada e de partida, apoio de informática e de rede e aspectos de segurança.

Desafios

Enfrentamos alguns desafios relacionados com assuntos técnicos, de viagens e de segurança. Esses desafios eram parte dos problemas normais de operar em um local como o Kuwait, mas eles teriam levados ao fracasso da missão se não fossem resolvidos. A viagem oficial está cheia de desafios específicos relacionados com o Sistema de Viagens da Defesa (Defense Travel System) e a obtenção de ordens oficiais para viajar. Tínhamos que passar pelo Aeroporto Internacional do Kuwait e verificamos antes com o USARCENT para coordenar o transporte. Antes de partir, contactamos o oficial de informações do USARCENT para iniciar o processo de autorização de acesso à rede e aos e-mail, o que facilitou o seu uso na chegada. A obtenção da autorização da seção de segurança da informação do comando exigiu paciência e persistência. As medidas de segurança física impuseram restrições sobre a movimentação e as comunicações, o que obrigava a execução de uma coordenação e pré-planejamento cuidadosos. Devido ao espaço limitado dos escritórios, nos mudamos três vezes em cinco semanas. Mantendo a flexibilidade e coordenando antecipadamente com o estado-maior, minimizamos as interrupções associadas com essas mudanças. Finalmente, o envio dos discos rígidos foi complicado devido às horas limitadas de funcionamento e aos procedimentos da agência de correio.

Conclusão

Desde que eu e Villard retornamos aos EUA, três destacamentos de história militar foram desdobrados no Kuwait, e o esforço de coleta continua até hoje. Como historiador do Exército, descobri que o apoio prestado ao USARCENT para construir uma coleção de documentos históricos foi uma oportunidade de desenvolvimento profissional muito compensadora. Demonstramos que os historiadores civis do Exército podem preencher o papel de um destacamento de história militar, por um breve período de tempo. Os historiadores raramente têm a chance de observar, em primeira mão, a criação da história e a produção dos registros que usam como base da sua pesquisa. A oportunidade de observar um exército de campanha em ação foi singular, e nós testemunhamos a habilidade e o profissionalismo de militares, civis e terceirizados do Exército dos EUA. Estou orgulhoso de ter tido o privilégio de trabalhar ao lado deles, para ajudar a construir um registro histórico das suas realizações.

Os pontos de vista expressos neste artigo são os do autor e não refletem as posições ou políticas oficiais do Centro de História Militar do Exército dos EUA, Departamento do Exército, Departamento de Defesa ou quaisquer órgãos do Governo dos EUA.

Referências

  1. Army Techniques Publication (ATP) 1-20, Military History Operations (Washington, DC: U.S. Government Publishing Office [GPO], 9 Jun. 2014).
  2. Center for Army Lessons Learned (CALL) Handbook No. 09-22, Commander’s Guide to Operational Records and Data Collection: Tactics, Techniques, and Procedures (Fort Leavenworth, KS: CALL, March 2009).
  3. A coleta de registros operacionais de unidade ajuda a facilitar o tratamento médico de militares, ao preservar os documentos úteis para processar pedidos de benefícios assistenciais e pensões ou conduzir pesquisas de estudos.
  4. O Exército Central dos EUA (USARCENT) perpetua a linhagem do 3o Exército, organizado em 1918, que passou por combate extensivo no norte da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2006, o 3o Exército foi renomeado o USARCENT. Consulte “Lineage and Honors; Main Command Post and Operational Command Post Headquarters, United States Army Central,” U.S. Army Center of Military History (CMH) website, 5 Apr. 2011, acesso em: 2 nov. 2016, http://www.history.army.mil/html/forcestruc/lineages/branches/army/usacentral.htm.
  5. “U.S. Army Central/Third Army History,” USARCENT website, acesso em: 27 out. 2016, http://www.usarcent.army.mil/About-USARCENT/History/.
  6. Joint Publication 3-31, Command and Control for Joint Land Operations (Washington, DC: U.S. GPO, 24 Feb. 2014), p. x. “A designação de um JFLCC [comando do componente terrestre da força conjunta] ocorre, normalmente, quando forças de efetivo e de capacidade significativos de mais de um componente de Forças Singulares participam em uma operação terrestre e o JFC [comandante da força conjunta] considera que isso afetaria a unidade de comando e de esforço entre as forças terrestres”. Um CFLCC [comando do componente terrestre da força da coalizão] desempenha as mesmas funções, mas dentro de uma força multinacional.
  7. ATP 1-20, Military History Operations, p. 3-4. Informação adicional sobre a organização e o emprego dos destacamentos de história militar pode ser encontrada na ATP 1-20, cap. 4, e o Army Regulation (AR) 870-5, Military History: Responsibilities, Policies, and Procedures (Washington, DC: U.S. GPO, 21 Sep.2007).
  8. ATP 1-20, Military History Operations, p. 1-2.
  9. Ibid., p. 5-7.
  10. AR 25-400-2, The Army Records Information Management System (ARIMS) (Washington, DC: U.S. GPO, 2 Oct. 2007). A série sobre o Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial pode ser encontrada no website do Centro de História Militar, modificado mais recente em 27 Mai 2011, acesso em: 2 nov. 2016, http://www.history.army.mil/html/bookshelves/collect/usaww2.html.
  11. William M. Yarborough, “Undocumented Triumph: Gulf War Operational Records Management,” The Journal of Military History 76 (October 2013): p. 1431–32; CALL Handbook No. 09-22 contém, também, uma discussão sobre a falência da administração de registros do Exército e a repercussão dela durante a Guerra do Golfo.
  12. AR 25-400-2, The Modern Army Recordkeeping System (MARKS) (Washington, DC: U.S. GPO, 15 Oct. 1986, agora revogado). Edições subsequentes do AR 25-400-2 foram publicadas antes de serem substituídas pelo ARIMS.
  13. Para mais informações sobre a administração de registros operacionais durante a Guerra do Golfo, consulte Yarborough, “Undocumented Triumph: Gulf War Operational Records Management”.
  14. U.S. Army Center of Military History, U.S. Army Center of Military History Strategic Plan, 2015-2019 (Washington, DC: U.S. Army Center of Military History, 2015), p. 4. O Centro de História Militar transferiu uma cópia de registro da coleção da Guerra Global contra o Terrorismo para a Agência de Gerenciamento e de Desclassificação de Registros do Exército para ser incluída no depósito da Administração dos Arquivos e Registros Nacionais.
  15. Para mais informação sobre historiadores independentes e equipes, consulte a ATP 1-20, Military History Operations, para. 3-16. Orientação adicional relevante a nossa missão está disponível na ATP 1-20, cap. 4, 5 e 6.
  16. Ibid., p. 6-5.
  17. Uma ordem fragmentária é uma forma abreviada de uma ordem de operações.
  18. O aumento do conhecimento da situação ao reunir-se com comandantes e assistir às reuniões rotineiras foi recomendado pela ATP 1-20, Military History Operations, e por historiadores do Exército que já participaram em operações.
  19. Para uma lista dos tipos de documentos coletados por historiadores do Exército, consulte a ATP 1-20, Military History Operations, p. 5-1—5-2.
  20. A determinação aos destacamentos de história militar e aos historiadores em campanha de enviem uma cópia da sua coleção ao Centro de História Militar é prescrita no AR 870-5, Military History, para. 4-7 c(3), p. 10; consulte, também, a ATP 1-20, Military History Operations, p. 4-7.
  21. O envio de registros com credencial de segurança “SECRETO” pelo correio oficial é autorizado no AR 380-5, Department of the Army Information Security Program (Washington, DC: U.S. GPO, 29 September 2000), para. 8-3.

Michael Yarborough é historiador da Seção de História de Unidade e de Estrutura da Força do Centro de História Militar (U.S. Army Center of Military History’s Force Structure and Unit History Branch), no Forte McNair, Washington, D.C. É bacharel e mestre em História Americana pela George Mason University.

ST William Staude, da Reserva Remunerada, presta continência à Bandeira Nacional sendo conduzida por militares do 316o Comando de Apoio Expedicionário, ao desfilarem à sua frente, durante a parada do Dia do Veterano, em Pittsburgh, Pensilvânia, 11 Nov 11. (Sgt Michel Sauret, 354o Destacamento Móvel de Relações Públicas)

A Importância de Manter Registros de Campanha

Uma reportagem investigativa realizada conjuntamente pelos jornais ProPublica e Seattle Times revelou que os registros de campanha das guerras no Iraque e no Afeganistão foram perdidos, destruídos ou nunca preservados no local de origem. Os autores Peter Sleeth e Hal Bernton discutem sobre essa crítica lacuna e detalham suas consequências em “Lost to History: Missing War Records Complicate Benefit Claims by Iraq, Afghanistan Veterans” (“Perdido na História: Registros de Combate Perdidos Prejudicam Pedidos de Benefícios Assistenciais de Veteranos do Iraque e do Afeganistão”).

Os autores escrevem, “Desde a Guerra do Golfo, de 1990, o fracasso em criar e preservar os documentos de registros de campanha que têm documentado os conflitos americanos desde a Guerra Revolucionária [têm tormentado as Forças Armadas dos EUA].... A falência do sistema de registro foi especialmente grave durante os anos iniciais da guerra no Iraque, quando insurgentes empregaram bombas improvisadas com efeitos devastadores sobre os soldados dos EUA. Da mesma forma, as Forças Armadas têm perdido ou destruído registros do Afeganistão, segundo autoridades e documentos inéditos. A perda de registros de campanha — análises pós-ação, relatórios de informações e outros documentos diários das zonas de guerra — tem implicações de grande alcance. Isso tem prejudicado os esforços feitos por militares ... para solicitar os benefícios assistenciais e pensões a que fazem jus. E faz com que seja mais difícil para estrategistas militares aprenderem as lições do Iraque e do Afeganistão, duas das guerras mais prolongadas da nação. Os oficiais e historiadores das Forças Armadas dizem que os registros de campanha proporcionam os detalhes minuciosos que, quando entrelaçados, compõem narrações maiores, escondidas dos participantes na confusão diária do combate. O Exército alega que tem tomado medidas para melhorar a gestão de registros — incluindo melhor treinamento e mais ênfase por parte dos comandantes superiores. No entanto, oficiais familiarizados com o problema disseram que o material perdido talvez nunca possa ser recuperado. ‘Nem consigo começar a descrever as dimensões do problema’, disse Conrad C. Crane, Diretor do Instituto de História Militar do Exército dos EUA. ‘Receio que nunca realmente vamos saber claramente o que ocorreu no Iraque e no Afeganistão, porque não temos os registros’”.

Observação

Segundo Trimestre 2017