Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

O Linguajar Verde-Oliva no Ensino de Português para Militares Estrangeiros

Cap Célia Regina Rodrigues Gusmão, Exército Brasileiro

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Após oito meses de estudo da língua portuguesa, o Cadete Li Zhikuan, do Exército da China, terminou o Curso de Português para Militares Estrangeiros. A  solenidade de encerramento ocorreu no dia 21 Out 15. O militar estudou no Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias para aprender e se aperfeiçoar no idioma. (Foto do Centro de Estudos de Pessoal/FDC)

As características atuais do nosso mundo globalizado exigem dos integrantes dos exércitos de cada país não só a proficiência em idiomas, mas também a conscientização cultural, algo vital para o sucesso de missões e para o fortalecimento de parcerias entre países.

Em janeiro de 2011, o Departamento de Defesa dos EUA promoveu uma reunião de cúpula com os principais acadêmicos e líderes militares das Américas, intitulada Idioma e cultura: um imperativo estratégico. No discurso de abertura, o subsecretário da Defesa para a prontidão, Samuel Kleinman, afirmou que competências linguísticas e consciência cultural formam uma questão imperativa de segurança nacional, “essencial para promover relações internacionais seguras e compreender as ameaças postas por possíveis adversários” (DIÁLOGO, v. 21). O General Fraser, comandante do Comando Sul dos EUA à época, acrescentou ainda que, ao ser capaz de falar outros idiomas e de aplicar o contexto cultural em sua interação, o militar melhora significativamente sua comunicação com seus contrapartes.

No contexto militar brasileiro, a presença de militares estrangeiros é uma constante. Ao chegarem ao Brasil, esses estrangeiros encontram não só um idioma e uma cultura diferentes dos seus, mas, inseridos no ambiente militar, deparam-se com um jargão próprio, cheio de particularidades que dificultam a comunicação entre pares.

Sendo assim, este artigo tem por objetivo identificar as reais dificuldades de militares estrangeiros em relação à Língua Portuguesa (LP), em contexto militar de ensino brasileiro, e, consequentemente, servir de auxílio aos brasileiros que dão aulas de LP para militares estrangeiros no Brasil ou no exterior, assim como a militares estrangeiros que pretendam participar de missões no Brasil.

Principais Dificuldades dos ONA em relação à Língua Portuguesa (LP) do Brasil

A questão que permeia este estudo foi possível responder por meio da aplicação de questionários a 16 Oficiais de Nações Amigas (ONA) em missão no Brasil, mais especificamente na Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), no ano de 2015, como alunos ou instrutores do Curso de Comando e Estado-Maior. Os questionários foram respondidos individualmente e recolhidos em data posterior.

A análise dos dados obtidos permitiu concluir que a dificuldade maior dos ONA, em contexto militar brasileiro, é compreender as siglas cotidianas do jargão militar. Algumas siglas são facilmente aprendidas após uma explicação dos brasileiros; no entanto, isso não ocorre em relação a todas as siglas usadas, principalmente as que são citadas pelos alunos da ECEME nas simulações de exercícios no terreno.

Os dados também permitem afirmar que a segunda maior dificuldade dos ONA consiste em compreender as gírias militares e a terceira dificuldade é redigir textos/documentos militares, conforme o gráfico da figura 1.

Figura 1 – Dificuldades em contexto militar de ensino

Logo, em busca de entender melhor o contexto em que essas dificuldades ocorrem, outro questionário foi aplicado a fim de delimitar quais são as principais expressões e palavras que compõem o jargão do militar do Exército Brasileiro (EB) e como esse linguajar vem sendo usado no dia a dia.

Houve 50 participantes brasileiros voluntários. A primeira parte do questionário delineou o perfil do respondente: idade, posto ou função e tempo de serviço. A segunda buscou caracterizar o uso do jargão militar, dentro e fora do local de trabalho, as gírias mais usadas e a ocorrência de situações inusitadas pelo uso do jargão fora do seu contexto de origem.

A análise dos dados coletados permitiu constatar que os brasileiros têm dificuldades semelhantes aos estrangeiros em relação ao linguajar militar cotidiano, já que 88% dos participantes afirmaram ter estranhado o jargão militar quando ingressaram no EB.

Sobre o uso do jargão militar no ambiente de trabalho, dos 50 participantes, 44 afirmaram usá-lo e esse uso é ainda mais predominante no grupo dos militares mais jovens (idade entre 20 e 25 anos), que afirmaram usar o linguajar verde-oliva não só no local de trabalho, mas também em qualquer ambiente.

Quanto à incompreensão causada por usar o jargão militar fora do trabalho, 54% dos participantes afirmaram a necessidade de ter que explicar diversas palavras do jargão usadas ao conversar com civis.

Todos esses dados permitem afirmar que o linguajar da caserna é uma dificuldade para falantes nativos quando em seu primeiro contato com esse vocabulário. Portanto, os questionários aplicados se complementam, pois corroboram o fato de essa particularidade dos integrantes de quartéis ser difícil não só para estrangeiros, mas para os próprios brasileiros recém-ingressados no EB. Por isso, a seguir, serão delimitadas as principais características do jargão militar a fim de melhor compreendê-lo.

O Jargão do EB e suas Peculiaridades

Segundo o General Jonas Correia, autor de Introdução ao vocabulário de gíria militar, o linguajar militar é: “maneira viva, esperta, original, satírica, mordaz mesmo, de apelidar, designar pessoas, coisas e fatos”. (CORREIA, 1961, p. 31)

Trajano, pesquisadora do jargão marinheiro, afirma que “o uso de linguajar específico funciona como um elemento de coesão e de identidade de um determinado grupo”, sendo essa união fundamental no “enfrentamento de um conflito, no sentido de promover a confiança e o trabalho em conjunto” (TRAJANO, 2007) por parte de seus membros.

Sendo assim, o uso do jargão reflete a busca por identidade, por sentir-se parte de um grupo, por ser incluído e aceito pelo grupo. O “anseio por identidade vem do desejo de segurança” (BAUMAN, 2005, p. 35), pois estar total ou parcialmente ‘deslocado’ […] pode ser uma experiência desconfortável, por vezes perturbadora” (Ibid., p. 19).

Cabe ressaltar que o linguajar militar do EB é uma variante sociolinguística do Português Brasileiro caracterizada pelo uso de vocabulário específico dentro dos quartéis e organizações militares e inclui tanto termos técnicos quanto gírias. Essas, por sua vez, são as formas linguísticas revestidas de novos significados próprios da linguagem figurada, tais como a ironia, o eufemismo, o disfemismo, a metáfora, a metonímia, etc.

De acordo com a Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, figuras de linguagem são “formas simbólicas ou elaboradas de exprimir ideias, significados, pensamentos, etc., de maneira a conferir-lhes maior expressividade, emoção, simbolismo, etc., no âmbito da afetividade ou da estética da linguagem”. Portanto, não possuem significado isolado, mas dependentes do contexto situacional e linguístico de ocorrência.

Logo, o jargão militar é composto não só pelos vocábulos referentes à linguagem profissional, mas também pelas gírias e expressões coloquiais. Dessa forma, as figuras de linguagem estarão presentes, conforme será visto a seguir.

Exército Brasileiro envia militar para o ensino de Língua Portuguesa na Universidade Militar de Moscou (VUMO -Voyennyy Universitet Ministerstva Oborony). O Tenente-Coronel Flávio César de Siqueira Marques foi o primeiro militar designado para a missão no segundo semestre de 2016. (Foto do Centro de Comunicação Social do Exército – CComSEx/EB)

(1) Metáfora: processo que envolve termos de domínios conceituais diferentes, entre os quais existe uma comparação implícita. Exemplos: moita (pessoa que não se sobressai ou que nunca aparece), apagado (pessoa que não se destaca), bicho (aluno novo, cadete do 1º ano da AMAN, caxias (pessoa cumpridora de regras ou com extrema correção de atitudes), cotonete (roupa usada no período de adaptação ao meio militar composta por camiseta branca e calça jeans), entubado (alguém que esteja cheio de tarefas a realizar, com muitas missões a cumprir), felpa (situação vantajosa, conforto), jangal (situação ruim, difícil), laranjeira (militar que mora no quartel), rolha (assunto ou coisa sem importância), tampa (qualquer tipo de cobertura: quepe, gorro, boina), etc.

(2) Metonímia: processo que consiste em ampliar ou deslocar a significação de uma palavra por manter relações entre a parte e o todo, um produto e sua matéria-prima, um ser e seu princípio ativo, um ser e seus traços físicos, etc. O processo de identificação dos indivíduos com base no que realizam, tal como a designação de profissionais é metonímico (AZEREDO, 2008, p. 422). Exemplos: banquinho (instrução teórica realizada em sala de aula), boca boa (atividade ou missão boa de realizar), boca podre (atividade trabalhosa ou difícil que não pode deixar de ser feita), boca de rancho (aquele que faz todas as refeições no rancho, no refeitório do quartel), capa preta (juiz em um tribunal), gravata (como são chamados os artilheiros, por serem detalhistas e gostarem de tudo arrumado), artilheiro, cavalariano, engenheiro, infante, intendente, etc.

(3) Disfemismo: uso de palavra ou expressão considerada grosseira, grotesca, ou simplesmente desagradável em lugar de outra mais branda ou neutra. É o oposto do eufemismo (Ibid., p. 500). Exemplos: lixão (alguém que use o uniforme bagunçado, mal trajado, desinformado, que não cumpre prazos, ou seja, quem foge do padrão de qualidade que um militar deve ter), mijada (bronca, chamada de atenção).

(4) Eufemismo: atenuação do que é desagradável, grosseiro ou indecoroso por meio da substituição por sinônimos de significação aproximada (CÂMARA JUNIOR, 2007, p. 138). Exemplos: faltar com a verdade (mentir); estar na mike (ter algum problema, estar cheio de tarefas a cumprir); etc.

(5) Ironia: uso de uma palavra com significado diverso do que realmente designa. Dissimula-se o pensamento com a expectativa de que o destinatário o compreenda, embora dito por meio de expressão que denota o contrário. (AZEREDO, Op. cit., p. 501). Exemplos: estiloso (militar que se destaca dos demais por ter um estilo diferente de se vestir); raro (militar engraçado, lento ou que tem atitudes incomuns), etc.

Essa análise do léxico que compõe a gíria militar permitiu observar que a metáfora é a figura de linguagem predominante no linguajar verde-oliva. Já a menos frequente, nos jargões exemplificados, é a ironia.

Todos esses processos figurativos do linguajar verde-oliva requerem do ouvinte um domínio semântico que extrapola o significado literal. Levinson (2007) afirma que a metáfora, por exemplo, é uma capacidade básica de raciocinar analogicamente na estrutura e no uso da língua e permite múltiplas correspondências de campos conceituais. Logo, para quem não faz parte do contexto, os militares estrangeiros e os recém ingressados no EB, torna-se mais difícil de compreensão.

Por todo o exposto, o linguajar verde-oliva tem palavras próprias que carregam em si um significado perceptível e claro a quem já faz parte do contexto, a quem está habituado ao conjunto de circunstâncias e situações em que tal léxico se produz. É isso que permite sua correta compreensão.

As diferenças e particularidades assumidas pelo léxico que compõe o jargão militar geram situações curiosas, pois o entendimento, muitas vezes, sequer chega a ser semelhante ao uso feito no dia a dia. O relato de uma professora do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), a Ten Amanda, sobre a fala de algumas de suas alunas do 6º ano do Ensino Fundamental exemplifica essa questão. Duas alunas se atrasaram para a aula e, ao chegarem à sala, foram questionadas pela professora sobre o motivo do atraso, ao que responderam: “Demoramos porque o Capitão estava ‘fazendo xixi’ na gente”. A resposta causou espanto e grande estranhamento à Ten Amanda, mas, em seguida, as alunas explicaram que se tratava de uma bronca que elas haviam recebido. Logo, tentando amenizar o uso da gíria militar mijada, pois, em contexto civil, essa palavra é comum apenas no vocabulário masculino, e por lhes parecer feia e inapropriada à sua fala (note-se que a faixa etária frequente do 6º ano é de 10 a 12 anos), as alunas fizeram um uso totalmente diferente e inexistente no linguajar militar, descaracterizando o emprego normalmente feito.

Cadetes russos realizando atividades da disciplina “Língua Portuguesa para Assuntos Militares” na Universidade Militar de Moscou. (Foto do Centro de Comunicação Social do Exército – CComSEx/EB)

Até mesmo uma simples palavra como formatura pode causar estranheza. O relato da aluna Anne Caroline Dias, também do CMRJ, sobre seu primeiro dia de aula revela essa diferença. No primeiro dia de aula da aluna no Colégio Militar, recebeu a informação de que se apresentou em dia de formatura, ao que pensou: “Formatura de quê? Se estamos no início do ano, em que os alunos vão se formar?” Cabe ressaltar que, em meio civil, a palavra formatura refere-se à cerimônia festiva de conclusão de um curso. A aluna entendeu, posteriormente, que formatura era a solenidade militar ocorrida com os alunos em forma. Nesse mesmo dia, o monitor da aluna falou que ela ficaria com os bichos. Novamente, ela estranhou ainda mais: “bichos”? Então, pensou: “Por que razão, em um colégio tão grande, seria colocada com os bichos?” Só minutos depois, entendeu que bichos é a forma como são chamados os alunos novatos. O fato causou risadas e a fez perceber que havia muito a aprender.

Todas essas peculiaridades representam dificuldades aos militares estrangeiros, que, inseridos na cultura militar brasileira, experimentam estranhamento igual ao sofrido pelos civis e militares brasileiros em seu primeiro contato com o jargão do EB. Porém, tudo indica que a peculiaridade mais desafiadora sejam as siglas usadas com bastante frequência. Quase todo documento ou conversa tem sempre uma ou mais siglas em seu conteúdo.

Um militar brasileiro, recém ingressado no EB, ao começar a ler certos manuais que compõem a Literatura castrense, está diante de um desafio, a ponto de alguns trechos da leitura parecerem uma verdadeira “sopa de letrinhas”. Na linguagem coloquial, ou seja, nas conversas de dia a dia, isso também ocorre.

A figura 2 apresenta uma pequena relação de algumas siglas bastante usadas em contexto militar de ensino a fim de esclarecer o seu significado.

Figura 2

Conclusão

Concluiu-se que o jargão e a gíria militares são os principais causadores de dúvidas a militares estrangeiros em missão no EB em relação à Língua Portuguesa do Brasil. Em busca de oferecer um material possível de uso aos brasileiros que trabalham com esse público, principalmente àqueles que lecionam LP para estrangeiros, foi realizada uma pesquisa sobre o jargão militar com 50 brasileiros. Essa pesquisa possibilitou afirmar que o jargão militar do EB tem características muito próprias do contexto em que ocorre, sendo elemento marcador de coesão do grupo que reflete a busca por identidade, por sentir-se parte desse grupo e por ele aceito.

Constatou-se também que o jargão militar é usado por todas as faixas etárias dos integrantes do EB dentro e fora dos quartéis.

No que se refere à gíria, foi possível afirmar que o linguajar militar possui um grande número de palavras metafóricas, assim como inúmeras siglas, comuns e fáceis a quem já as conhece, mas causadoras de dúvidas a quem com elas não está habituado.

Portanto, esse estudo procurou delimitar a principal dúvida apresentada pelos oficiais estrangeiros em relação ao linguajar verde-oliva, a fim de contribuir com quem interaja com esses militares no Brasil ou no exterior. Entretanto, o linguajar castrense é tema que carece de estudos mais amplos, devido a suas peculiaridades de uso.


Referências

  • AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha. (2008)
  • BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar. (2012)
  • BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar. (2005)
  • CAMARA JUNIOR, Joaquim Mattoso. Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis: Vozes. (1997)
  • CORREIA, Jonas. Introdução ao vocabulário de gíria militar. Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Cultura. (1961)
  • CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. (2008)
  • DIÁLOGO, v. 21. (2011). Disponível em: https://dialogo-americas.com/pt/articles/dominio-de-idiomas-e-vital-para-o-sucesso-miliar. Acesso em 02 Set. 2017.
  • GONZÁLEZ, Félix Rodríguez. (2005) Diccionario de terminología y argot militar. Madrid: Verbum. (2005)
  • GUSMÃO, Célia Regina Rodrigues. O linguajar verde-oliva. Curitiba: Prismas. (2016)
  • LEVINSON, Stephen C. Pragmática. São Paulo: Martins Fontes. (2007)
  • TRAJANO, Gisele. “Investigando a metáfora “a vida é uma guerra” no linguajar marinheiro”. In: Revista de Villegagnon. Nr 2, ano . Rio de Janeiro: Escola Naval. pp. 87-93. (2007)

A Cap Célia Rodrigues Gusmão, do Exército Brasileiro, é militar de magistério do Quadro Complementar de Oficiais (QCO), da turma de 2005. É autora do livro “O linguajar verde-oliva”, que descreve as particularidades do linguajar castrense. Tem licenciatura em Letras (Língua Portuguesa e Espanhola); especialização em Língua Espanhola e em Ciências Militares e Mestrado em Estudos da Linguagem, com foco no ensino de Português para estrangeiros. Atualmente, é professora do Colégio Militar de Curitiba (CMC), no Paraná. Lecionou também no Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), no Instituto Militar de Engenharia (IME), no Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). No IME, foi professora de Português para os cadetes de West Point que fazem intercâmbio no Instituto e as dúvidas frequentes desses alunos sobre o linguajar verde-oliva despertaram o interesse da militar pelo estudo das particularidades do jargão castrense. Mantém uma página no Facebook: (Linguajar verde-oliva - livro) e um perfil no Instagram: @linguajarverdeoliva, onde divulga o vocabulário militar e temas afins.

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Segundo Trimestre 2018