Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

Os Russos da América Latina

Moscou em Busca de Influência sobre as Comunidades de Língua Russa na Região

Brian Fonseca

Vladimir Rouvinski

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O primaz da Igreja Ortodoxa Russa celebra a liturgia na Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo, no dia 21 Fev 16, último dia de sua visita à América Latina. (Foto cedida pela Igreja Ortodoxa Russa, Departamento de Relações Externas)

A recuperação da Rússia no sistema internacional após o colapso da União Soviética em 1991 a levou de volta à América Latina em busca de oportunidades econômicas e geopolíticas. Entretanto, a limitada capacidade russa para exercer influência por meio de instrumentos tradicionais de poder (como o diplomático, econômico e militar) em um sistema internacional dominado pelo Ocidente obrigou o país a procurar fontes alternativas. Para isso, a Rússia tem se apoiado cada vez mais em abordagens informacionais e sociológicas a fim de cumprir os objetivos de sua política externa — algo que alguns estudiosos descrevem como guerra híbrida1. Por exemplo, a Rússia tem cortejado sua diáspora em todo o mundo, incluindo a América Latina, com o intuito de explorar as comunidades de língua russa como uma fonte de poder nacional.

Desde o início dos anos 1990, a mobilização da diáspora russa tem sido uma característica central de sua política externa no “exterior próximo”, isto é, as antigas repúblicas soviéticas e os países do Pacto de Varsóvia em grande proximidade geográfica com a Rússia2. Nos últimos anos, porém, Moscou também intensificou suas ações para organizar e mobilizar sua diáspora no “exterior distante”, isto é, em regiões tão longínquas quanto a América Latina. Ao longo da última década, houve um esforço coordenado para unir a diáspora na América Latina e Caribe, na tentativa de fortalecer a conexão de Moscou com comunidades russófonas cada vez maiores e mais organizadas. As organizações focadas na diáspora englobam movimentos de compatriotas, centros culturais, a Fundação Russkiy Mir, veículos de comunicação russos e, é claro, a Igreja Ortodoxa Russa, todos os quais ajudam a cultivar as comunidades de língua russa como fonte do poder nacional russo. Este artigo analisa a evolução da mobilização da diáspora russa na América Latina e Caribe, avaliando seu potencial para apoiar os objetivos da política interna e externa daquele país.

A Diáspora como Nova Fonte do Poder Nacional Russo

A inspiração de Moscou para utilizar a diáspora como um componente da política externa advém, principalmente, de mudanças estruturais ocorridas imediatamente após o colapso da União Soviética em 1991. As 14 nações independentes estabelecidas ao longo da nova fronteira da Rússia compreendiam territórios que, até então, haviam feito parte dos assuntos internos de Moscou. Esses territórios estavam, agora, vulneráveis à influência ocidental e precisavam ser rapidamente incorporados na estratégia de política externa russa. Algo que Moscou via como uma vantagem era o fato de que as populações nesses territórios mantinham uma forte ligação com suas raízes russas e se compunham, em grande parte, de falantes nativos de russo. Assim, o Kremlin formulou uma estratégia para o “exterior próximo” que incluía políticas destinadas a cultivar influência entre as comunidades pró-Rússia. Em um discurso à Organização das Nações Unidas (ONU) em 1994, o Presidente russo Boris Yeltsin defendeu o papel do seu país em proteger os russocs étnicos e garantir a paz nas nações recém-independentes que antes compunham a União Soviética, um conceito denominado posteriormente de Doutrina de Yeltsin3. O então Ministro das Relações Exteriores, Andrei Kozyrev, elaborou a primeira Estratégia da Política Externa Russa em 1993, que buscava proteger os direitos dos milhões de integrantes das comunidades de língua russa nas antigas repúblicas soviéticas4.

A partir de 1994, Moscou começou a estabelecer importantes políticas — Comissão Estatal sobre Assuntos dos Compatriotas, Lei Federal da Federação Russa para os Compatriotas Russos e Programa Estatal de Apoio à Migração Voluntária de Compatriotas para a Federação Russa — destinadas a fortalecer a conexão de Moscou com os russos residentes no exterior5. O Ministério das Relações Exteriores estabeleceu o Departamento de Assuntos de Compatriotas em 2005 e a Agência Federal para Assuntos da Comunidade dos Estados Independentes, Compatriotas Residentes no Estrangeiro e Cooperação Humanitária Internacional da Federação da Rússia (Rossotrudnichestvo). Essas entidades analisam as comunidades da diáspora, criam estratégias para mobilizar os compatriotas e coordenam ações com organizações relacionadas que, segundo as estimativas, incluem 30 milhões de russos no mundo inteiro6.

Operários petroleiros russos no depósito de Astra, por volta de 1936, Chubut, Patagônia, Argentina. (Foto cedida por Wikimedia Commons)

Inicialmente, as políticas estavam voltadas, predominantemente, à diáspora no “exterior próximo”. Entretanto, ao longo da última década, tem havido um esforço mais deliberado de desenvolvimento de uma diáspora russa conectada globalmente, graças, em grande parte, ao Presidente russo Vladimir Putin. Em 2006, Putin afirmou que a “cooperação com a diáspora, o amparo legal e o apoio a eles são uma de nossas prioridades nacionais”7. Com efeito, Putin frequentemente inclui a diáspora em definições do Estado-nação russo e enxerga a interação com as comunidades de língua russa ao redor do mundo como um componente cada vez mais importante de sua estratégia de diplomacia pública. Putin se refere a isso publicamente como o “mundo russo”, também conhecido como Russkiy Mir, um conceito que se apoia na identidade russa em âmbito mundial e reúne as comunidades de língua russa sob uma designação nacionalista8. Segundo o Conceito de Política Externa de 2016 da Rússia, os objetivos incluem “unificar a diáspora russa ao redor do mundo” para promover os interesses da política externa russa9. Moscou quer que os russos ao redor do mundo conservem os vínculos culturais e históricos e o idioma e promovam uma imagem positiva do país nas nações anfitriãs, para ajudar nas iniciativas comerciais e diplomáticas russas10. Evidências de êxito no emprego da diáspora russa para apoiar a política externa de Moscou incluem a Geórgia; a anexação da Crimeia, tomada da Ucrânia em 2014; e a interferência nas eleições da Estônia e Letônia, entre outras.

História da Diáspora Russa na América Latina

Os imigrantes russos apareceram pela primeira vez na América Latina e no Caribe no início do século XIX. As primeiras ondas migratórias incluíram, predominantemente, migrantes laborais oriundos da parte europeia do império russo e, em menor escala, membros da oposição política das províncias bálticas na Polônia e oeste da Ucrânia. Após outubro de 1917, apenas um número relativamente pequeno de russos que fugiam do governo comunista escolheram a região como local de refúgio, geralmente por não terem conseguido estabelecer residência na Europa ou Ásia. A segunda onda migratória russa para a América Latina ocorreu após o término da Segunda Guerra Mundial, contendo, predominantemente, cidadãos soviéticos que residiam nos territórios libertados pelos aliados ocidentais e que não queriam voltar para a União Soviética. Essas pessoas expandiram a presença da diáspora na América Latina para a Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai, Uruguai e Venezuela. Os primeiros migrantes russos estabeleceram a base para importantes intercâmbios culturais entre a Rússia com os países das Américas. De fato, alguns russos étnicos das primeiras ondas migratórias se tornaram figuras políticas famosas na história da América Latina. Por exemplo, Juan Belaieff, nascido com o nome de Ivan Timofeyevich Belyaev em São Petersburgo, na Rússia, imigrou para a Argentina em 1923, e, em seguida, para o Paraguai, em 1924. Belaieff foi cartógrafo e soldado no Paraguai, venerado por seu papel no mapeamento da região do Chaco, antes da vitória paraguaia sobre a Bolívia na Guerra do Chaco (1932–1935)11.

A diáspora contemporânea na América Latina consiste, principalmente, em populações russófonas que migraram para a região após o colapso da União Soviética em 1991, de modo geral por razões econômicas. Mais recentemente, a partir de 2012 aproximadamente, houve um aumento da emigração russa. Alguns analistas sugerem que os atuais emigrantes russos procedem, geralmente, das classes média e média alta e tiveram carreiras de sucesso na Rússia, mas viram poucas oportunidades de crescimento em seu país de origem12. Como não existem restrições quanto a sair da Rússia para morar fora e a maioria dos países latino-americanos não exige visto para quem tenha o passaporte russo, muitos decidiram migrar para a região em busca de trabalho ou simplesmente como uma experiência antes de decidirem mudar-se permanentemente para o exterior.

Segundo estudos etnográficos, a diáspora russa mantém um forte senso de identidade e uma consciência coletiva como grupo étnico, unificada, em grande parte, pelo idioma em comum13. A cultura, a culinária, a arte e a literatura também servem como marcas particulares da identidade russa dentro da diáspora, que costuma incluir as populações de língua russa de antigas repúblicas soviéticas, como Ucrânia, Geórgia e Belarus. Os integrantes da atual diáspora russa costumam assimilar-se rapidamente e integrar-se com bastante sucesso nas sociedades anfitriãs14. Os russos residentes na América Latina costumam ter uma forte memória coletiva sobre sua terra natal, que reflete uma ideia de grandeza russa, uma característica que Moscou explora em sua interação com eles. A diáspora costuma permanecer patriótica e fortemente conectada com a Rússia por meio de relacionamentos interpessoais e comerciais e vínculos religiosos. Os meios de comunicação russos — programas de televisão, rádio e internet — e a programação financiada pelo governo russo são cruciais para unificar a diáspora, definindo e promovendo a identidade russa dentro e por meio dela na região.

Somente nos últimos anos, o governo passou a solicitar que os russos residentes no exterior informem sua cidadania ou residência permanente às autoridades na Rússia. Assim, é difícil precisar o número de russos que moram na América Latina e no Caribe. Contudo, as embaixadas russas e pesquisadores independentes estimam que entre cem mil e trezentas mil pessoas sejam residentes permanentes na Argentina; entre cem mil e duzentas mil no Brasil; entre cinquenta mil e cem mil no México; e uma quantidade bem menor (entre mil e cinco mil) em outros países da América Latina e do Caribe15. Cabe mencionar que comunidades de língua russa estão presentes de modo identificável na maioria, se não todos, os países latino-americanos, e que o governo russo considera os russos que moram na América Latina e no Caribe como um importante recurso para seu engajamento regional.

Como forma de celebrar o pluralismo cultural, a cidade de Buenos Aires homenageia a cultura russa, com roupas, comidas, danças e músicas típicas nas ruas da capital, 03 Jun 18. (Foto cedida pelo Governo da Cidade de Buenos Aires)

Mobilizando a Diáspora Russa na América Latina

Desde 2007 aproximadamente, o governo russo tem unificado e mobilizado as comunidades de língua russa na América Latina por meio de várias organizações. Essas organizações incluem conselhos coordenadores, centros culturais russos, a Fundação Russkiy Mir, a Igreja Ortodoxa Russa e os meios de comunicação russos — em muitos casos, com o apoio direto das embaixadas russas. Essas organizações ainda estão em estágios relativamente iniciais e variados de desenvolvimento na América Latina e no Caribe. Além disso, há poucos sinais de uma cooperação regional entre essas organizações, o que limita o escopo e o alcance da diáspora na região.

A Agência Federal para Assuntos da Comunidade dos Estados Independentes, Compatriotas Residentes no Estrangeiro e Cooperação Humanitária Internacional, do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, foi estabelecida por decreto presidencial em 2008 e conta com escritórios de representação em embaixadas russas e centros científicos e culturais russos em 80 países, incluindo oito na América Latina e Caribe16. Há representantes da Rossotrudnichestvo na Argentina, Brasil, Chile, Cuba, México, Nicarágua, Peru e Venezuela. Eles fomentam relações com a diáspora abertamente, realizando atividades em conjunto para promover o idioma e cultura russos, assim como os pontos de vista políticos de Moscou. Solicitam a ajuda da diáspora no “estabelecimento de relações amistosas entre os países”17. O próprio Vladimir Putin é responsável pela indicação do chefe da Rossotrudnichestvo. Alguns dos principais parceiros da Rossotrudnichestvo na América Latina incluem os Conselhos Coordenadores de Compatriotas Russos, a Fundação Russkiy Mir, a Fundação Cultural Russa e meios de comunicação como RT, Sputnik e TASS.

Embaixadas russas. As embaixadas russas são importantes fontes de apoio para as organizações da diáspora promoverem e mobilizarem seus integrantes. As embaixadas russas frequentemente utilizam centros culturais como locais para a realização de reuniões com os cidadãos russos que moram na região em questão. Formalmente, as reuniões são organizadas por organizações de compatriotas e não pelas embaixadas diretamente. Entretanto, representantes da embaixada presidem as reuniões e redigem atas. Isso se deve ao fato de que essas reuniões são consideradas de extrema importância: é nelas que os funcionários das embaixadas russas e os representantes de organizações de compatriotas podem transmitir mensagens diretas do governo em Moscou para os russos que residem no exterior e explicar o que se espera dos membros da diáspora russa em determinado país. Em particular, Moscou espera que os membros da diáspora mantenham imagens extremamente positivas dos russos residentes no exterior, com o objetivo de promover a ideia de “um país que seja motivo de orgulho” entre os colegas e amigos latino-americanos e de disseminar o ponto de vista russo em relação a importantes acontecimentos que envolvam a Rússia18. Em troca, as equipes das embaixadas russas recebem informações detalhadas sobre o envolvimento dos moradores russos em atividades econômicas, políticas e culturais e atualizam seus arquivos sobre eles nos respectivos países. Seria difícil e demorado obter esse tipo de informação por outros meios. Além disso, os representantes das embaixadas russas mostram grande interesse em saber dos residentes russos o que seus colegas e amigos latino-americanos acham da política interna e externa de Moscou.

Conselhos coordenadores. Moscou também se apoia no Conselho Internacional de Compatriotas Russos e nos Conselhos Coordenadores dos Compatriotas Russos para ajudar a unificar e coordenar as comunidades de língua russa em mais de 98 países ao redor do mundo19. Há Conselhos Coordenadores dos Compatriotas Russos em 15 países na América Latina e no Caribe20. Os conselhos coordenadores são frequentemente estabelecidos, orientados e financiados pelas embaixadas russas21. Por exemplo, na Argentina, o Conselho Coordenador das Organizações de Compatriotas Russos (KSORS), estabelecido em 2007, e o Conselho Coordenador da Juventude Russa, estabelecido em 2012, aparecem em destaque no site da embaixada russa na Argentina22. Em 2015, quando o recém-eleito Presidente argentino Mauricio Macri propôs suspender os direitos comerciais da RT, financiada pelo governo russo, o KSORS lançou uma campanha de envio de cartas, provavelmente apoiada pela embaixada russa, exigindo que ele mantivesse a rede na Argentina23. Além dos conselhos coordenadores de cada país, há, ainda, o Conselho Coordenador da América Latina, que reúne, uma vez por ano, representantes de toda a região para formular estratégias e programação destinadas a apoiar as comunidades de língua russa. A reunião de 2017 foi realizada em Costa Rica, e a de 2018 em Havana24.

Centros culturais russos. O ressurgimento de centros culturais russos na região é mais uma evidência do crescente interesse de Moscou em conectar-se com as pessoas na região. Muitos desses centros culturais ficaram praticamente abandonados após o colapso da União Soviética nos anos 1990 e início dos anos 2000. Exemplos desses centros incluem os Centros Russos de Ciência e Cultura em Buenos Aires, Santiago do Chile e Lima; o Instituto León Tolstoi em Bogotá; e o Instituto Máximo Gorki em Montevidéu; entre outros. Hoje, muitos dos centros citados foram reformados e oferecem vários serviços, que vão desde aulas de russo a exibições gratuitas de filmes russos com destaques do teatro e da dança.

Embora essas atividades estejam abertas a qualquer interessado, com a óbvia exceção das aulas de russo, os participantes são, em sua maioria, moradores russos. Para as autoridades russas, essa é uma forma de interagir com os membros da diáspora e mostrar-lhes que o governo russo se importa com eles. Ocasionalmente, são realizados, ainda, encontros com jornalistas, escritores e personalidades famosas russas, que apresentam palestras sobre fatos históricos ou atuais. Além dos centros culturais existentes, a Fundação Russkiy Mir patrocina uma série de programas novos, semelhantes aos Institutos Confúcio, da China. Esses centros culturais russos são, normalmente, alianças entre a fundação e uma universidade ou escola secundária. Eles recebem verbas diretamente de Moscou para promover o ensino da língua e cultura russa. Segundo o site da Fundação Russkiy Mir, ela patrocina 12 centros russos na América Latina — dois na Argentina e um no Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Cuba, Equador, Guatemala, México, Nicarágua e Peru, respectivamente25.

A Igreja Ortodoxa Russa. A Igreja Ortodoxa Russa é outra importante fonte de influência entre os russos na região, e Moscou se apoia fortemente nela para ajudar a criar um sentido de identidade russa entre os membros da diáspora. Embora muitos russos sejam adeptos, há poucas igrejas ortodoxas russas na América Latina. Ainda assim, o Departamento de Relações Externas do Patriarcado de Moscou dividiu a América Latina em distritos, e um representante do Patriarca Russo foi designado para cada um deles. Contudo, esses escritórios não têm a capacidade logística para contatar a maior parte das comunidades religiosas russas locais e, por isso, as informações sobre as atividades religiosas chegam aos russos por meio das embaixadas e membros das organizações da diáspora. Muitas cerimônias religiosas são realizadas nos centros culturais citados anteriormente.

Chefe da Agência Federal para Assuntos da Comunidade dos Estados Independentes, Compatriotas Residentes no Estrangeiro e Cooperação Humanitária Internacional da Federação da Rússia (Rossotrudnichestvo), Lyubov Glebova (à esquerda), e membro do Conselho da Federação Russa, Konstantin Kosachev, antigo Chefe da Rossotrudnichestvo, participam da primeira reunião da comissão de organização do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes 2017, 08 Fev 17, Centro de Exposição VDNKh em Moscou. (Foto de Vladimir Gerdo, TASS via Alamy)

Meios de comunicação russos. Os meios de comunicação patrocinados pelo governo russo, como RT, Sputnik, TASS e A Voz da Rússia, têm mobilizado russos na América Latina, a fim de comunicar os pontos de vista do governo russo à diáspora e disseminá-los por meio dela. A amplificação dos esforços de comunicação stratégica russos é realizada mediante um número cada vez maior de plataformas para transmitir informações: emissoras de TV, mídias sociais e a internet26. As autoridades russas monitoram a presença de russos residentes na América Latina por meio de redes sociais como o Facebook ou seu homólogo russo, o VK. Nos últimos anos, houve um crescimento extraordinário no Facebook impelido por habitantes russos da América Latina e Caribe. Há mais de 50 grupos de Facebook na região voltados para a articulação da diáspora russa. Alguns exemplos incluem “Russos na América Latina”, com 4.200 seguidores; o “Fórum Russo na Argentina”, com 1.300; e “Russos na Colômbia”, com 1.40027. Para o governo russo, o monitoramento de páginas do Facebook oferece uma fonte de informações sobre as atividades sociais, políticas, econômicas e culturais dos residentes russos. Também é um meio de disseminar “fake news” e informações a partir da perspectiva russa. Essas informações podem ser facilmente compartilhadas com os demais seguidores das mídias sociais dos membros da diáspora.

Talvez alguns se perguntem por que tantos russos que residem na América Latina decidem atender ao chamado e participar das reuniões organizadas pelas embaixadas. Há várias razões. Em muitos casos, os russos que moram na América Latina têm uma atitude positiva em relação às reuniões simplesmente porque elas servem para reforçar sua autoestima com base no orgulho coletivo e sentido de satisfação com a comunidade russa. As autoridades russas estão cientes disso e oferecem alguns incentivos, como a distribuição de certificados em reconhecimento a importantes contribuições feitas por indivíduos ao “fortalecimento de uma imagem positiva da Rússia no exterior”28. Esses certificados são assinados pelo embaixador e, às vezes, até mesmo pelo ministro das relações exteriores ou pelo próprio Putin. Há uma outra razão, de cunho diferente. Muitos russos que moram no exterior temem enfrentar dificuldades para obter documentos como passaportes, certidões e formulários para receber pensões da Rússia ou resolver questões sobre imóveis mantidos na terra natal. Ser reconhecido pela embaixada como um membro da diáspora russa é considerado algo útil para facilitar procedimentos formais e, com efeito, as autoridades russas demonstram boa vontade para ajudar pessoas que elas conheçam bem.

Conclusão

A diáspora ainda está em um estágio relativamente incipiente como instrumento do poder nacional russo na América Latina e Caribe, não tendo produzido nenhum benefício maior além de contribuir para a consciência cultural. Ainda assim, é importante observar que a América Latina e o Caribe foram utilizados para testar a política externa russa no passado — vale considerar as violentas guerras por procuração (proxy) conduzidas com o apoio russo durante os anos 1970 e 1980. Embora seja relativamente de pouco valor econômico ou político para a Rússia, a região está suficiente próxima dos EUA para oferecer uma vantagem, caso novos métodos se mostrem úteis para a consecução dos objetivos de sua política externa. Para tanto, a Rússia provavelmente continuará a reforçar uma comunidade de organizações favoráveis aos seus interesses, utilizando a diáspora na América Latina e no Caribe. No curto prazo, as comunidades de língua russa permanecerão disponíveis, mas limitadas quanto à sua capacidade para promover os interesses de Moscou, uma vez que a diáspora não obteve uma ampla influência comercial ou política. Ainda assim, ela será empregada para transmitir as perspectivas russas aos públicos latino-americanos com a esperança de reforçar a “marca” russa na região.

No longo prazo, a diáspora poderia aumentar seu valor comercial e político ao entrar em espaços de influência das sociedades latino-americanas, proporcionando a Moscou um maior acesso à região. Devido ao importante legado soviético, à presença de postos diplomáticos russos na região e à postura geralmente positiva em relação aos russos, aliados à facilidade na realização das atividades descritas neste ensaio, a diáspora russa na América Latina tem, para Moscou, uma posição privilegiada em comparação às de outras partes do mundo. Essa é apenas uma das diferentes razões pelas quais a Rússia valoriza o atual e futuro envolvimento com seus compatriotas russos na América Latina. A diáspora presente na Argentina, Chile, Uruguai e Brasil oferece, potencialmente, o maior retorno sobre o investimento para Moscou, uma vez que esses continuam sendo os principais países de destino para os russos que se mudam para a região.


Referências

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  26. Evgeny N. Pashentsev, “The Strategic Communication for Russia in Latin America and Its Interpretation by the USA”, Journal of Public Administration (Lomonosov Moscow State University, Moscow, Aug. 2012).
  27. Dados do Facebook compilados pelos autores.
  28. “Liubov Glebova at the World Conference ‘Together with Russia’: Compatriots—Our Partners in Strengthening the Positive Image of Russia Abroad”, Rossotrudnichestvo, acesso em 4 set. 2018, http://rs.gov.ru/en/news/2926.

Brian Fonseca é o Diretor do Jack D. Gordon Institute for Public Policy e Professor Adjunto do Departamento de Política e Relações Internacionais na Steven J. Green School of International and Public Affairs da Florida International University . Especializa-se na segurança nacional e política externa dos EUA. Suas publicações recentes incluem Culture and National Security in the Americas, com Eduardo A. Gamarra, e The New US Security Agenda: Trends and Emerging Threats, com Jonathan Rosen. Suas publicações de 2018 se concentram no envolvimento russo na América Latina, incluindo operações de informação e relações entre Rússia e Venezuela.

Vladimir Rouvinski, Ph.D., é o Diretor do Laboratório de Política e Relações Internacionais (PoInt) e Professor Associado do Departamento de Estudos Políticos na Universidad Icesi, Cali, Colômbia. Formou-se em História e Relações Internacionais pela Universidade Estadual de Irkutsk, na Rússia, e concluiu o mestrado e doutorado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional pela Hiroshima University no Japão. Antes de começar a trabalhar na Universidad Icesi em 2007, Rouvinski trabalhou para a Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS) e em instituições de ensino e pesquisa na Rússia, Japão e Colômbia. Serviu como associado no Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR); como pesquisador George F. Kennan no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington, D.C., pesquisador especial convidado da JSPS; e como pesquisador Otto Bennemann no Georg-Eckert-Institute, na Alemanha. Rouvinski é especialista nas relações da Rússia e países asiáticos com a América Latina.

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Segundo Trimestre 2019