Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

Combate em Múltiplos Domínios

Impulsionando a Mudança para Vencer no Futuro

Gen Ex David G. Perkins, Exército dos EUA

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Convergência inerentes do futuro campo de batalha em múltiplos domínios

Este é o primeiro de três artigos que abordam o impacto do conceito de Combate em Múltiplos Domínios pelo prisma do U.S. Army Training and Doctrine Command — TRADOC. Este artigo descreve as ideias que vêm tomando forma sobre como as forças terrestres poderão conduzir futuras operações dentro do conceito de Combate em Múltiplos Domínios que vem sendo desenvolvido pelo Army Capabilities and Integration Center (ARCIC). Em reconhecimento ao centenário da entrada das Forças Expedicionárias Americanas na Primeira Guerra Mundial, os artigos incluirão relevantes observações e lições históricas, para ajudar na compreensão do novo conceito e diferenciá-lo dos anteriores.

Talvez estejamos perdendo homens demais” não é o modo de iniciar uma conversa sobre mudar a doutrina1. O Gen John J. Pershing escreveu essas palavras em agosto de 1918, após as Forças Expedicionárias Americanas (AEF, na sigla em inglês) sofrerem mais de 60 mil baixas, em um período de cerca de quatro meses2.

Quando os Estados Unidos da América (EUA) entraram na Primeira Guerra Mundial, na primeira metade de 1917, Pershing estava convencido de que os alemães seriam expulsos das trincheiras e derrotados a descoberto por uma infantaria autossuficiente empregando a doutrina de open warfare [guerra aberta, também traduzida por guerra de movimento — N. do T.]3. Essa doutrina propunha que três brigadas de infantaria manobrassem fora das trincheiras que haviam imobilizado a guerra alguns meses após seu início, em 1914. Em vez do combate estático, a partir de trincheiras, as brigadas norte-americanas empregariam, supostamente, a velocidade e a mobilidade para infligir derrotas decisivas aos alemães. Embora Pershing houvesse cunhado a expressão open warfare, essas ideias condiziam com a doutrina pré-guerra — fortemente influenciada pelo pensamento militar alemão — que minimizava o emprego da artilharia e metralhadoras.

Contudo, as baixas sofridas pelas forças alemãs e pelas forças aliadas a partir de 1914 obrigaram os combatentes a compreender que a letalidade da artilharia de tiro rápido, metralhadoras e morteiros — e, mais tarde, gás, carros de combate e aeronaves — fez com que táticas como as defendidas na doutrina de Pershing passassem a ser praticamente suicidas. Os exércitos europeus, diante de uma quantidade insustentável de baixas, tiveram de adaptar-se e formular novas doutrinas e táticas após se estabelecer um impasse.

Enfrentando sua própria insustentável lista de baixas, Pershing determinou que seu QG realizasse uma revisão doutrinária4. A pequena mudança que houve chegou tarde demais: mais da metade das baixas norte-americanas na Primeira Guerra Mundial aconteceram no final de 1918, durante a Ofensiva Meuse-Argonne5. Apesar do discurso de mudança, a guerra de movimento persistiu, com comandantes como Pershing criticando as táticas e a doutrina das forças aliadas, ao mesmo tempo que continuavam a formular planos de ataque extraordinariamente agressivos e otimistas6. Eles subestimaram a importância do poder de fogo pesado e de seu controle, comunicação e coordenação7.

A aproximação do centenário do fim da Primeira Guerra Mundial oferece uma ocasião para se refletir sobre o modo pelo qual as forças terrestres devem se adaptar a mutáveis ambientes operacionais. Apesar do heroísmo das AEF em 1917 e 1918, fica claro que o Exército não adaptou sua doutrina para as condições operacionais que existiam na Frente Ocidental antes de os EUA entrarem na guerra. Os EUA tiveram a oportunidade de observar e aprender com a experiência europeia. Em vez disso, o Exército norte-americano persistiu com uma doutrina que já havia sido avaliada como insatisfatória. Os EUA hoje enfrentam uma situação comparável. Os ambientes operacionais estão mudando rapidamente. Quando chamado ao combate, o Exército não se pode permitir pagar o mesmo preço pago em vidas durante a Primeira Guerra Mundial. Desta vez, o Exército dos EUA precisa compreender as mudanças conforme elas forem ocorrendo e prever como elas afetarão as operações. A doutrina deve evoluir antes que o Exército enfrente potenciais inimigos, e não depois. Precisamos aprender a partir de um estudo e análise cuidadosos, para não termos de aprender por meio de experiências amargas.

Mudanças no Modo Pelo Qual o Exército Combaterá

Quando a nação convocar o Exército dos EUA a lutar e vencer sua próxima guerra, o ambiente operacional será diferente das circunstâncias de nossas experiências recentes. Será definido por um inimigo que desafiará nossa capacidade de manter a liberdade de manobra e superioridade nos domínios aéreo, cibernético, terrestre, marítimo e espacial e no espectro eletromagnético. Quando as tropas norte-americanas chegarem no campo de batalha com caros e avançados mísseis dirigidos de precisão, os inimigos poderão contra-atacar com respostas inovadoras e eficazes, a um custo bem mais baixo. Para se oporem à nossa rede de comunicações de última geração, eles podem violar, abalar ou negar nossas garantias por meio de um grupo bem organizado de hackers que ataquem alvos deliberadamente selecionados com base em Inteligência e em conformidade com um plano de manobra mais amplo — executando todas essas ações fora da área de operações. O ARCIC está desenvolvendo o conceito de Combate em Múltiplos Domínios para ajudar a preparar o Exército para esses possíveis campos de batalha futuros, em que as atuais vantagens norte-americanaspoderão se transformar em fraquezas e os domínios nos quais temos superioridade, atualmente, poderão se converter em áreas de um violento embate.

A doutrina descreve como o Exército conduz e se adestra para as operações na atualidade, com as capacidades que ele já tem. Por outro lado, os conceitos descrevem como o Exército poderá operar no médio e longo prazo, com base nos ambientes operacionais previstos para o futuro. Quando publicados nos manuais do Comando de Instrução e Doutrina do Exército dos EUA (U.S. Army Training and Doctrine Command — TRADOC), os conceitos orientam o estudo, a experimentação e a avaliação de novas soluções para doutrina e para organização, adestramento, material, liderança e educação, pessoal e instalações (dimensões da Força, conhecidas, coletivamente, como DOTMLPF). [Comparar com os fatores DOAMEPI – doutrina, organização (e/ou processos), adestramento, material, educação, pessoal e infraestrutura — N. do T.] Quando validados, os conceitos levam a mudanças dentro dessas dimensões da Força, incluindo a doutrina.

Mudar nunca é fácil, especialmente nas grandes organizações. O Exército como um todo, incluindo os componentes da Ativa, Reserva e Guarda Nacional, consiste em uma enorme organização de mais de 1.030.000 militares, além de milhares de funcionários civis espalhados por todo o mundo, em uma grande variedade de operações e níveis de aprestamento8. Mudar o Exército e prepará-lo para futuras operações não é uma simples questão de dar nova redação à doutrina e comprar novos equipamentos. Por seu tamanho, o Exército dos EUA mudará em uma escala além da que seria concebível para quase todas as empresas da lista Fortune 500. Essa transformação requer que ele desenvolva um conceito operativo baseado em uma detalhada campanha de aprendizagem que guiará mudanças por toda a Força.

Em Forging the Sword—Doctrinal Change in the U.S. Army (“Forjando a Espada — Mudança Doutrinária no Exército dos EUA”, em tradução livre), Benjamin M. Jensen explica que a mudança doutrinária se consolida pelo choque e competição ou por uma escolha cultural voluntária9. A mudança decorrente do choque e competição é a que ocorre à força, devido ao insucesso ou à observação do insucesso de outros. Os exércitos que falham antes de mudar talvez não possam se dar ao luxo de manter suas estruturas organizacionais preferidas; precisarão adaptar-se rapidamente à realidade imediata do que funcionará no combate em que estejam envolvidos. Com o insucesso, um exército é obrigado a se adaptar imediatamente; caso contrário, vai continuar falhando ou até perder. Entre muitos exemplos, os insucessos de Pershing no campo da doutrina refletem essa verdade: as forças norte-americanas foram vitoriosas no final, mas só após muitas vidas terem sido perdidas.

Contudo, a mudança baseada em uma escolha cultural voluntária é uma mudança proativa. É uma mudança por opção, que é feita com base em prever problemas e evoluir para evitar o insucesso. Na mudança proativa, os comandantes têm o tempo e a oportunidade para focalizar transformações que reflitam seus pontos fortes culturais e organizacionais10. O melhor exemplo histórico de uma mudança por opção é a Doutrina de Combate Ar-Terra (AirLand Battle, em inglês) dos anos 80.

Combate Ar-Terra como Modelo para a Mudança

Comparado à sangrenta lição aprendida pela experiência sofrida pelas AEF na Primeira Guerra Mundial, o desenvolvimento da Doutrina de Combate Ar-Terra oferece um melhor modelo para a mudança. A origem do Combate Ar-Terra baseou-se na observação da devastadora falta de prontidão de Israel no início da Guerra do Yom Kippur em 1973 (também chamada de Guerra de Outubro ou Guerra do Ramadã), quando o Egito e a Síria atacaram o país na Península do Sinai. Desde 1967, Israel se sentia confiante e pronto para repetir sua decisiva vitória sobre a coalizão árabe na Guerra dos Seis Dias. Entretanto, em 1973, os exércitos árabes avançaram rapidamente, e as forças israelenses sofreram uma grande quantidade de baixas antes de obterem, por fim, a vitória. Como os árabes recebiam suprimentos da União Soviética e os israelenses, dos EUA, o conflito confrontou as capacidades soviéticas e as norte-americanas em combate11. A capacidade do Exército dos EUA para observar e aprender com os erros de Israel permitiu-lhe mudar de um modo proativo e desenvolver pontos fortes seus e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

O comando percebeu, em 1973, que a Força estava pronta para combater a contrainsurgência no Vietnã, mas não para conduzir um combate de grande porte nas planícies da Europa Central. Entendeu que seus prováveis ambientes operacionais haviam mudado e que o Exército dos EUA precisava se transformar para acompanhá-los. Ao longo de mais de oito anos, o Combate Ar-Terra foi desenvolvido em um processo contínuo, primeiro como conceito e, mais tarde, como doutrina, na versão de 1982 do Manual de Campanha 100-5, Operações (FM 100-5, Operations).

Dos vários pontos importantes da Doutrina de Combate Ar-Terra, três são de grande valia para o Combate em Múltiplos Domínios. O primeiro foi a introdução da arte operacional, como é conhecida atualmente, e da estrutura do campo de batalha12. Tal estrutura proporcionou aos comandantes uma clara visualização de seu campo de batalha, codificado como áreas profunda, aproximada e de retaguarda. O segundo ponto foi a execução descentralizada, exigindo que os comandantes monitorassem seus setores continuamente para identificar possibilidades a serem exploradas — um precursor do Comando de Missão13. O terceiro, combate integrado integrated battle, termo cunhado por Douglas Skinner — foi a ideia de manobra, sincronização e poder de fogo sendo integrados na execução no campo de batalha14. Ainda que não definido, especificamente, no FM 100-5, a ideia de combate integrado permeia o documento. O apoio integrado de todas as armas e serviços é crucial nas ações aproximadas, incluindo a integração de poder aéreo para atacar o inimigo de forma escalonada15.

O colapso da União Soviética e do Pacto de Varsóvia pôs um fim à ameaça que o Combate Ar-Terra se destinava a neutralizar. Em seu lugar, em 1991, a Operação Desert Storm ofereceu uma oportunidade de validar, integralmente, o Combate Ar-Terra como doutrina. Ao executar a aparentemente impossível ação left hook [pelo flanco esquerdo], o Gen Norman Schwarzkopf se apoiou fortemente nos planejadores que haviam cursado a School of Advanced Military Studies, versados em guerra de mobilidade e arte operacional. A execução descentralizada, aliada à manobra de armas combinadas, havia sido bem afiada por meio de constantes rodízios e exercícios em centros de adestramento para o combate. Essa superioridade tática ficou evidente para o mundo durante a guerra terrestre de cem horas. A Operação Desert Storm representou a estreia do Combate Ar-Terra, provando que um processo eficaz ajusta a doutrina antes do combate seguinte.

O Conceito de Combate em Múltiplos Domínios para o Futuro

Ao desenvolver o conceito de Combate em Múltiplos Domínios, o Exército dos EUA busca trilhar o caminho aberto pelos formuladores da Doutrina de Combate Ar-Terra. Deseja evitar passar por uma lição sangrenta e traumática como a vivida pelas AEF em 1918. O Combate em Múltiplos Domínios é um conceito movido por uma escolha proativa, que leva em consideração a ameaça de insucesso. É uma evolução do conceito operativo do Exército dos EUA, detalhando uma resposta às nossas observações dos acontecimentos no Mar do Sul da China, Guerra de Nova Geração da Rússia e desafios em curso no Oriente Médio. É um reconhecimento de que os EUA estão chegando ao fim de um período em que ainda podem efetuar uma mudança por opção, sem terem sofrido graves perdas. O Exército precisa evoluir e mudar.

Figura – Versão Preliminar da Estrutura do Campo de Batalha Comparada à do Combate Ar-Terra

O desenvolvimento de conceito nos confere a oportunidade de definir problemas complexos, criar um modelo para entendê-los melhor e, então, decompô-los em problemas menores, mais detalhados e solucionáveis, por meio de cenários do mundo real. Eles nos conferem a oportunidade de formular, completamente, o quê, o porquê e o como da mudança. Eles nos forçam a mudar.

Para que o conceito de Combate em Múltiplos Domínios funcione como doutrina, e nas demais dimensões ou fatores da força, o primeiro passo é entender, claramente, os possíveis ambientes operacionais aos quais ele se destina. A publicação “Multi-Domain Battle: Combined Arms for the 21st Century” (“Combate em Múltiplos Domínios: Armas Combinadas para o Século XXI”, em tradução livre), de 2017, define o problema central desta forma: “As forças de combate terrestre dos EUA, que operam como parte […] de equipes conjuntas, interorganizacionais e multinacionais, não estão, atualmente, suficientemente treinadas, organizadas, equipadas ou posicionadas para dissuadir ou derrotar inimigos capazes e com poder de combate equivalente para poderem vencer em futuras guerras”16. Enquanto no Combate Ar-Terra, o terreno, a política e o inimigo eram conhecidos, hoje em dia diferentes adversários com capacidades diversas e crescentes têm alcançado, ativamente, seus objetivos sem chegar ao nível de conflito armado. A realização de uma ação militar em resposta às ações de nossos adversários depara-se com vários problemas complexos. Os adversários podem ameaçar impor os custos de um campo de batalha extremamente letal, limitar o acesso a domínios essenciais, desafiar a capacidade de manter a superioridade nos domínios aéreo e marítimo e tentar negar acesso ao teatro de operações.

Com base nesses problemas complexos e inter-relacionados, o conceito de Combate em Múltiplos Domínios chegará a um nível de detalhe em que soluções possam ser formuladas, aplicadas, testadas e avaliadas. Algo essencial para se chegar até esse nível de detalhe é o estabelecimento de uma estrutura do campo de batalha. A estrutura do campo de batalha é uma ferramenta cognitiva utilizada para ajudar os comandantes a exercerem o Comando de Missão. Uma adequada estrutura do campo de batalha permite que os comandantes visualizem, descrevam, dirijam, liderem e avaliem claramente a aplicação do poder de combate em termos de tempo, espaço, finalidade e recursos. À medida que os ambientes operacionais mudarem, as estruturas anteriores se mostrarão inadequadas para essas tarefas. Reformular a estrutura do campo de batalha é essencial para o êxito do Combate em Múltiplos Domínios.

O Combate Ar-Terra nos proporcionou uma estrutura do campo de batalha dividida em ações profundas, aproximadas e de retaguarda para definir o problema de como as Forças Armadas dos EUA combateriam e venceriam em condições de inferioridade numérica. A estrutura do Combate em Múltiplos Domínios precisa possibilitar a vitória em um mundo ainda mais complexo. O Combate em Múltiplos Domínios está expandindo a estrutura do campo de batalha para conduzir o combate em toda a amplitude e profundidade das capacidades inimigas, estendendo-se, de forma totalmente integrada, do campo de batalha à Zona do Interior (ZI) e ao longo de múltiplos domínios. A figura apresenta uma versão preliminar da estrutura do campo de batalha, conforme ele evoluiu a partir da Doutrina de Combate Ar-Terra, baseado no estágio de desenvolvimento do conceito quando da publicação deste artigo.

A estrutura preliminar sendo desenvolvida pelo ARCIC compreende seis espaços físicos: área de fogos profundos, área profunda, área aproximada, área de apoio, área de apoio operacional e área de apoio estratégico. Quando aplicadas a missões no mundo real, essas áreas não são, necessariamente, lineares ou contíguas; sua designação e demarcação dependem, totalmente, do terreno geopolítico onde estejam localizadas:

  • Uma área de fogos profundos está além do alcance útil das forças de manobra convencionais, mas está situada onde fogos conjuntos e capacidades nacionais podem ser empregados para efeito operacional ou estratégico. Por estar, provavelmente, dentro de um território soberano, ela é negada, em grande parte, por elementos de manobra.
  • Uma área profunda contém desafios que precisam ser superados para se obter sucesso na área aproximada. Em uma área profunda, as forças de manobra devem ter a capacidade de convergir e criar intervalos de superioridade nos domínios para obter a iniciativa operacional.
  • Uma área aproximada é onde ocorre a principal troca direta de fogos. Em uma área aproximada, as forças terrestres conquistam e mantêm acidentes capitais, manobram para destruir as formações terrestres do inimigo e controlam as populações.
  • Uma área de apoio fornece suporte direto ao combate avançado. Uma área de apoio possibilita as operações nas áreas aproximada, de manobra profunda e de fogos profundos com capacidades de sustentação (logística), fogos, apoio à manobra e Comando de Missão.
  • Uma área de apoio operacional contém o ponto central, as capacidades essenciais e a sustentação das forças conjuntas. Fornece, ainda, o local das capacidades fundamentais de Comando de Missão, sustentação e fogos e ataques ar-terra da Força Conjunta.
  • Uma área de apoio estratégico se estende do território nacional, ao longo das linhas de comunicação da missão, até o ponto de entrada inicial no teatro de operações. Em detalhes, a área de apoio estratégico engloba portos e unidades no território nacional, linhas de comunicação marítimas e aéreas estratégicas e comunicações no âmbito nacional. Atravessar e operar na área de apoio estratégico decerto exigirá uma afiada coordenação entre os comandos geográficos combatentes.

É importante que até mesmo os locais virtuais estejam atrelados a locais físicos nessa estrutura. Espaço, ciberespaço e ambiente informacional são frequentemente citados como domínios ou dimensões exclusivamente virtuais, mas essa caracterização está incorreta. A obtenção de um efeito físico requer a localização física de um mecanismo de lançamento ou produção de efeitos, pontos de apoio para facilitar tal lançamento e o ponto do efeito pretendido.

Além disso, em todos os níveis da guerra e fases operacionais, as capacidades virtuais são posicionadas no espaço físico segundo seu nível de emprego. Por exemplo, um grupo organizado de hackers que esteja operando em uma área de fogos profundos pode utilizar servidores proxy de uma outra área de fogos profundos, fora do teatro de operações, para produzir efeitos contra uma unidade específica que esteja mantendo um acidente capital na área aproximada. Os hackers podem realizar isso visando familiares de seus inimigos em seu território de origem. Esses efeitos podem ser letais, utilizando as mídias sociais e imagens de fontes ostensivas para selecionar alvos na sede e comunidade de origem da unidade, mais vulneráveis, ou não letais, como esvaziar contas bancárias. Qualquer uma das duas abordagens distrairia a unidade visada, o que criaria uma oportunidade a ser explorada pelo inimigo.

Por meio dessa estrutura do campo de batalha, os problemas identificados na publicação “Multi-Domain Battle: Combined Arms for the 21st Century” passam de linhas gerais para problemas detalhados, que podemos resolver. Esses problemas são concebidos ao longo da estrutura do campo de batalha contra capacidades específicas do adversário. Por meio dessa abordagem, quer estejamos lidando com a letalidade do campo de batalha quer aprimorando capacidades para mitigar fraquezas em nossas redes de comando e controle, a estrutura do campo de batalha fornece uma base para aprofundarmos o entendimento de modo que soluções nas dimensões DOTMLPF possam começar a tomar forma.

Combate em Múltiplos Domínios — Evolução de um Conceito Anterior ou Algo Fundamentalmente Único?

A questão agora é se a estrutura do campo de batalha ampliou-se, contraiu-se ou ambos. Embora tenha se expandido muito além da constante da Doutrina de Combate Ar-Terra, a estrutura proposta parece ter, na verdade, comprimido o campo de batalha. Na versão preliminar, contudo, a vastidão do espaço e ciberespaço — além dos efeitos de longo alcance das operações de informação, guerra eletrônica e até mesmo algumas armas convencionais — faz com que o campo de batalha seja ilimitado. Da ZI à área aproximada, há o potencial para um engajamento imediato com fogos de longo alcance, ciberespaço, espaço, guerra eletrônica e informação. Se o campo de batalha estiver, verdadeiramente, comprimido, ele mudará radicalmente o porquê e o modo pelo qual soluções DOTMLPF serão buscadas.

O Combate em Múltiplos Domínios, como conceito, e a expansão do campo de batalha se valem de ideias passadas. A estrutura do campo de batalha apresenta um conceito semelhante a ações profundas, aproximadas e de retaguarda — o conceito operativo vigente no Exército dos EUA até ser substituído, em 2001, por operações no amplo espectro, apenas para ser retomado na Publicação Doutrinária do Exército 3-0, Operações (ADP 3-0, Operations), dez anos mais tarde17. Também há um claro foco no nível operacional da guerra e na ideia de combate integrado de Skinner. Por fim, a gênese do Combate em Múltiplos Domínios resulta, em parte, da diretriz do Vice-Secretário de Defesa Robert Work determinando a criação de uma nova versão da Doutrina de Combate Ar-Terra como meio de operacionalizar a terceira estratégia offset [ou de compensação, que visa a manter a vantagem sobre os adversários — N. do T.], iniciada em novembro de 2014 pelo então Secretário de Defesa Chuck Hagel18. Embora o Combate em Múltiplos Domínios descenda do Combate Ar-Terra, cada etapa de seu processo de evolução é concebida para confrontar os desafios correntes mediante a formulação de soluções novas e diferentes.

Os atuais desafios diante das Forças Armadas dos EUA demonstram um campo de batalha sendo comprimido. Na enorme estrutura, sob o aspecto geográfico, do Combate em Múltiplos Domínios, planejar para a incapacidade de garantir comunicações e superioridade nos domínios seria um foco inteiramente novo, embora a ameaça não seja inteiramente nova na guerra. Dessa ótica, o Combate em Múltiplos Domínios evolui como algo que toma como base o passado, mas está posicionado para lidar com circunstâncias novas e muito diferentes das que as forças terrestres dos EUA enfrentaram gerações atrás.

Além da estrutura, integrar os domínios espacial e cibernético e o espectro eletromagnético no modo pelo qual as tropas do Exército e forças conjuntas combaterão é algo que o Departamento de Defesa está apenas começando a entender. O Combate em Múltiplos Domínios reintroduz a ideia de que a convergência de capacidades em diferentes domínios ao longo das dimensões DOTMLPF são um pré-requisito para o sucesso; é assim que o conceito define integração. Por fim, em virtude do papel de novas tecnologias, indo da inteligência artificial à robótica, o Combate em Múltiplos Domínios leva em consideração o fato de que o caráter do combate no futuro campo de batalha será diferente. Entretanto, como conceito, o Combate em Múltiplos Domínios se distancia da ficção científica e se volta às capacidades específicas que serão necessárias para vencer no futuro combate.

O Exército — juntamente com as demais Forças Singulares — tem uma clara oportunidade. O ambiente de segurança está evoluindo e continuará a mudar rapidamente. Nossos desafios podem se estender além dos adversários imediatos nos quais nos concentramos. Contudo, ao nos concentrarmos em como responder às capacidades de nossos adversários, os conceitos e subsequente doutrina que criarmos continuarão a melhorar nossas capacidades de DOTMLPF de uma maneira convergente e integrada ao longo de todas as funções de combate, e, espera-se, das forças conjuntas, de modo que possamos chegar no futuro campo de batalha com convergência e integração — um passo adiante e em um ritmo mais rápido que nosso inimigo. A vitória começa aqui.


Referências

  1. Gen John J. Pershing, memorandum to Maj. Gen. James McAndrew, 7 Aug. 1918, National Archives, records group 120, box 101, entries 16, 17 and 18 (Chief of Staff, GHQ [General Headquarters], Memoranda, Cablegrams, Telegrams, 1917–19), apud James W. Rainey, “Ambivalent Warfare: The Tactical Doctrine of the AEF [American Expeditionary Forces] in World War I”, in The Parameters of War: Military History from the Journal of the U.S. Army War College, eds. Lloyd J. Matthews e Dale E. Brown (Washington, DC: Pergamon-Brassey’s International Defense Publishers, 1987), p. 220.
  2. Ibid.; Mark Ethan Grotelueschen, The AEF Way of War: the American Army and Combat in World War I (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2010), p. 45; American Armies and Battlefields in Europe (Washington, DC: Center of Military History, 1995), p. 42.
  3. Grotelueschen, The AEF Way of War, p. 31–32.
  4. Ibid., p. 45.
  5. Richard S. Faulkner, “Hard Knocks, Hubris and Dogma: Leader Competence in the American Expeditionary Forces”, in Leadership: The Warrior’s Art, ed. Christopher D. Kolenda (Carlisle, PA: Army War College Press, 2001), p. 159.
  6. J. P. Clark, Preparing for War: the Emergence of the Modern U.S. Army, 1815-1917 (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2017), p. 267.
  7. Grotelueschen, The AEF Way of War, p. 50–57.
  8. 2017 Index of U.S. Military Strength, The Heritage Foundation website, 2017, acesso em 19 mai. 2017, http://index.heritage.org/military/2017/assessments/us-military-power/u-s-army/
  9. Benjamin M. Jensen, Forging the Sword—Doctrinal Change in the U.S. Army (Stanford, CA: Stanford University Press, 2016), p. 8–17.
  10. Ibid., p. 13.
  11. Steven Baxter, “Arab-Israeli War October 1973, Lessons Learned, Lessons Forgotten”, research paper (Newport, RI: Naval War College, 1994), 1, acesso em 31 mai. 2017, http://www.dtic.mil/dtic/tr/fulltext/u2/a279557.pdf; George W. Gawrych, “The 1973 Arab-Israeli War: The Albatross of Decisive Victory”, Leavenworth Papers no. 21 (Leavenworth, KS: Combat Studies Institute, 1996); “Yom Kippur War”, History.com website, acesso em 31 mai. 2017, http://www.history.com/topics/yom-kippur-war.
  12. FM 100-5, Operations (Washington, DC: U.S. Government Publishing Office, 1982 [obsoleto]), p. 10 e p. 19–21.
  13. Ibid., p. 98; Douglas Skinner, AirLand Battle Doctrine (Alexandria, VA: Center for Naval Analyses, September 1988), p. 15.
  14. Skinner, AirLand Battle Doctrine, p. 17.
  15. FM 100-5, Operations, p. 36.
  16. Edwin B. Werkheiser, “Multi-Domain Battle: Combined Arms for the 21st Century”, Army–Marine Corps white paper (Fort Eustis, VA: U.S. Army Training and Doctrine Command, 24 February 2017), p. 3, acesso em 25 mai. 2015, http://www.tradoc.army.mil/MultiDomainBattle/docs/MDB_WhitePaper.pdf.
  17. Bill Benson, “The Evolution of Army Doctrine for Success in the 21st Century”, Military Review 92, no. 2 (2012): p. 2–12.
  18. Robert Work, “Deputy Secretary of Defense Speech”, Army War College Strategy Conference, Carlisle, Pennsylvania, 8 April 2015, acesso em 31 May 2017, https://www.defense.gov/News/Speeches/Speech-View/Article/606661/army-war-college-strategy-conference/; for more on the third offset strategy, see Chuck Hagel, “Toward a Strong and Sustainable Defense Enterprise”, Military Review 95, no. 1 (January-February 2015): p. 8–14.

O Gen Ex David G. Perkins, do Exército dos EUA, é o Comandante do U.S. Army Training and Doctrine Command — TRADOC. Concluiu o bacharelado pela Academia Militar dos EUA; o mestrado em Engenharia Mecânica pela University of Michigan; e o mestrado em Estudos Estratégicos e Segurança Nacional pela Naval War College. Serviu, anteriormente, como Comandante do Centro de Armas Combinadas do Exército dos EUA, em Fort Leavenworth, Estado do Kansas..

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