Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

Combate nas Áreas Avançadas

Modernizando o Reconhecimento e Segurança no Exército dos EUA para Conflitos entre Grandes Potências

Maj Nathan Jennings, Exército dos EUA

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Viatura blindada leve M8 é utilizada para executar reconhecimento durante a Segunda Guerra Mundial, por volta de 1944. O M8, às vezes chamado de Greyhound, foi fornecido a unidades de cavalaria como uma viatura de reconhecimento. Era capaz de atingir velocidades de 88 km/h, com excelente mobilidade em estrada, o que o tornou especialmente útil para operações nos sistemas rodoviários bem desenvolvidos da Europa. Era equipado com um rádio de longo alcance, um canhão de 37 mm e uma metralhadora de calibre .30 ou .50. O M8 mostrou ser muito versátil, tendo sido amplamente utilizado por unidades de cavalaria para o reconhecimento e para apoiar missões de cobertura durante a Segunda Guerra Mundial e nas décadas seguintes. (Foto cedida por War History Online, www.warhistoryonline.com)

Atualmente, o Exército dos Estados Unidos da América (EUA) enfrenta uma lacuna crítica em sua capacidade para vencer guerras expedicionárias contra adversários com poder de combate quase equiparado. À medida que se reorienta para potenciais operações de combate terrestre em larga escala contra adversários como a Rússia e a China, a instituição está chegando a um consenso, mais uma vez, de que seus corpos de exército e divisões requerem forças escalonadas de reconhecimento e segurança (Rec Seg) para moldar as condições nos flancos e áreas avançadas, em proveito da manobra das brigadas de combate (brigade combat teams — BCT) que operam em segundo escalão (follow-on maneuver). Essa necessidade, que exige forças-tarefas combinadas em apoio direto, para permitir a liberdade de ação, manter o ritmo operativo e preservar a coesão da formação para os comandos táticos mais elevados, continua sendo um requisito essencial para que as forças conjuntas dos EUA penetrem, desarticulem e desintegrem as defesas de áreas negadas do adversário.

[*No Exército dos EUA, a cavalaria inclui tanto elementos terrestres quanto elementos aéreos de asas rotativas. — N. do T.]

A escassez de elementos terrestres* de cavalaria nos escalões táticos mais elevados do Exército dos EUA reflete um despreparo mais amplo para conflitos de maior alcance, intensidade e duração, após as prolongadas campanhas de contrainsurgência no Oriente Médio. À semelhança das reorganizações dos escalões de artilharia, defesa antiaérea, aviação e engenharia, a força se desfez de seus regimentos de cavalaria blindados (RCB) e regimentos de cavalaria divisionários (RC/Div) — que haviam sido especificamente projetados para possibilitar as manobras de corpo de exército e divisão — entre 2003 e 2011, em favor da criação de BCT padronizadas de infantaria, Stryker e blindadas. Conforme afirmou o General Mark Milley, 39o Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA [equivalente ao Comandante do Exército, no Brasil — N. do T.], esses tipos de transição colocaram em risco a “capacidade [da instituição] de executar operações terrestres de suficiente escala e ampla duração para alcançar objetivos estratégicos”1.

[**No Exército dos EUA, há, entre outras classificações, uma que se refere ao ritmo de reconhecimento e que engloba tanto a velocidade quanto o grau de sigilo da ação. Forceful, indicado pelo termo “forçado” neste artigo, se contrapõe a stealthy, isto é, secreto ou furtivo. Para obter mais informações, veja o Manual de Campanha 3-98, Operações de Reconhecimento e Segurança (FM 3-98, Reconnaissance and Security Operations). — N. do T.]

A lacuna de capacidades resultante requer, assim, ou uma aceitação da abordagem atual, com uma correspondente mitigação, ou uma reorganização significativa da estrutura de reconhecimento e segurança do Exército em diversos escalões. Muitos exercícios de posto de comando nos escalões corpo de exército e divisão, além de dados históricos oriundos da Operação Iraqi Freedom, Guerra do Golfo, Guerra da Coreia e Segunda Guerra Mundial, mostraram que novas tecnologias de vigilância e busca de informações nunca serão capazes de reproduzir, plenamente, o valor do reconhecimento forçado** (forceful) por unidades de cavalaria terrestre2. Futuramente, o Exército dos EUA poderá explorar algumas opções relativamente neutras em termos de custo para resolver o problema: manter a atual doutrina de BCT de reconhecimento e segurança (BCT Rec Seg); reorganizar e transformar todos os regimentos de cavalaria das BCT em RCB e RC/Div modernizados; converter algumas BCT selecionadas em grupamentos de cavalaria modulares; ou, ainda, transformar algumas delas em forças-tarefas de reconhecimento e ataque.

Escalonamento de Reconhecimento e Segurança

Qualquer abordagem do reconhecimento e segurança escalonados começa com a identificação das diferenças entre os meios necessários para conduzir operações em profundidade destinadas a criar as condições prévias para a manobra dos corpos de exército e divisões e os meios necessários para possibilitar o combate aproximado por brigadas e batalhões. No caso dos comandos táticos nível divisão ou corpo de exército, isso significou, historicamente, a alocação de meios de aviação e fogos de longo alcance em apoio direto às formações de armas combinadas, para permitir a busca de informações negadas ao longo de maiores frentes e profundidades3. Embora os exploradores de brigada e batalhão também tirem proveito, habitualmente, dos fogos aéreos e terrestres para aumentar o alcance e a letalidade, as formações de cavalaria nos níveis táticos superiores, na condição de “olhos e ouvidos” dos comandantes de escalões mais elevados, requerem mais recursos para permitir maior independência de manobra e capacidade de resposta tática.

A Guerra do Golfo, em 1991, por exemplo, ilustrou como a cavalaria nos escalões corpo de exército e divisão poderia escalonar as operações a fim de possibilitar a derrota decisiva de um adversário entrincheirado e blindado. Naquele conflito no deserto, o 2o e o 3o RCB executaram ações agressivas de reconhecimento em força à frente do VII Corpo de Exército e do XVIII Corpo Aeroterrestre, enquanto uma formação de RC/Div veio em seguida, para facilitar a ultrapassagem e guiar os ataques de suas respectivas divisões4. O resultado foi uma aproximação bem informada, em que exploradores sincronizados possibilitaram um envolvimento maciço e fatal das forças de defesa iraquianas no sul do Iraque. Conforme afirmou o documento Operation Desert Shield/Storm After Action Report (“Relatório Pós-Ação sobre a Operação Desert Shield/Storm”) do VII Corpo de Exército, em 1991, essa experiência validou o fato de que a ordem de batalha do Exército dos EUA precisava de “reconhecimento armado e blindado em todos os escalões […] de batalhão a corpo de exército”5.

Viaturas blindadas de transporte de pessoal M113 do Esquadrão E, 2o Batalhão, 11o Regimento de Cavalaria Blindado, executam operações contra as tropas norte-vietnamitas na Província de Kampong Cham, Camboja, em maio de 1970. (Foto cedida por Dave R. Watters, http://www.11thcavnam.com/Photos/Dave%20Watters/Dave_Watters.htm)

Este requisito permanente apresenta maior relevância histórica nas grandes ofensivas da Segunda Guerra Mundial. Em 1944 e 1945, conforme avançou para a França e Alemanha, o Exército dos EUA empregou a cavalaria escalonada para moldar as condições em áreas avançadas. Enquanto os exércitos de campanha forneciam grupos de cavalaria mecanizados aos corpos de exército, compreendendo dois regimentos com viaturas com rodas e carros de combate leves, cada divisão blindada dispunha de um regimento mecanizado e as divisões de infantaria tinham um esquadrão de reconhecimento motorizado. Os grupos de cavalaria mecanizados, em particular, proporcionaram aos comandantes táticos de escalões mais elevados um “conjunto” modular de forças de reconhecimento capazes de operar de forma centralizada ou dispersa para capacitar os esforços principais. Durante todo o conflito, o Exército dos EUA enviou 13 grupos de cavalaria mecanizados e 16 regimentos divisionários para a Europa6.

O escalonamento das forças de reconhecimento e segurança também se mostrou valioso em campanhas mais descentralizadas. Evocando suas origens ligadas à Guerra de Fronteira durante a Revolução Mexicana, o 11o RCB proporcionou ao III Corpo de Exército e ao Comando de Assistência Militar no Vietnã três regimentos blindados de alta mobilidade, que se especializaram em patrulhamento em larga frente, segurança de eixo e, se necessário, ataque de choque, enquanto lutavam contra uma resoluta resistência guerrilheira. As capacidades únicas de armas combinadas do regimento se mostraram cruciais para repelir ataques dos vietcongues na área de Saigon durante a Ofensiva de Tet, em 19687. Três décadas depois, quando os EUA enfrentaram uma forte insurgência no Iraque, o 3o RCB demonstrou semelhante valia ao conferir à coalizão uma opção de economia de meios para se apossar de áreas vastas e periféricas naquele país, como a Província de Al Anbar e o distrito de Tal Afar.

Esse tipo de escalonamento atingiu máxima eficácia durante os anos 80 e 90, por meio da integração orgânica de equipes de cavalaria ar-terra, projetadas para ampliar o alcance operativo e conferir ritmo aos corpos de exército e divisões. Ao conjugar meios de asa rotativa com exploradores terrestres durante as reformas do programa Army of Excellence (“Exército de Excelência”) e da doutrina Batalha Ar-Terra, a cavalaria se organizou para conduzir o reconhecimento profundo, contrarreconhecimento letal e segurança de flanco prolongada contra ameaças com poder de combate equiparado, providas de maior capacidade para manobras de grande alcance. Conforme observado pelo historiador Robert Cameron, da Escola de Blindados do Exército dos EUA, “os exploradores aéreos utilizaram sua maior velocidade para cobrir longas distâncias e alertar sobre ameaças iminentes”, enquanto seus parceiros terrestres “manobraram em seguida, para esclarecer a situação e fornecer informações mais detalhadas”8.

Buscando desenvolver os pontos fortes comprovados dos RCB e RC/Div, seus sucessores — seja qual for a sua forma — deverão integrar abordagens tradicionais de armas combinadas com novas capacidades em diferentes domínios. Esses novos acréscimos, que podem incluir meios cibernéticos e eletrônicos, informacionais, espaciais e de operações especiais, oferecem o potencial para proporcionar um alcance operativo e capacidade de resposta bem maiores às ações de reconhecimento e segurança9. Nas próximas décadas, a modernização das formações de cavalaria também pode aproveitar avanços em inteligência artificial, plataformas remotas e autônomas, fogos hipersônicos, blindagem energizada e tecnologias de camuflagem para reformular a busca de informações em um contexto de múltiplos domínios, com assinaturas reduzidas e maior letalidade.

Apesar desses anseios, as soluções imediatas para a lacuna de capacidades de reconhecimento e segurança do Exército dos EUA devem se apoiar na realidade. Isso significa aceitar limitações que, provavelmente, incluem a falta de aviação tripulada orgânica nas formações de cavalaria terrestre devido a restrições no âmbito de toda a força; a contínua dependência em relação a plataformas blindadas pesadas para o reconhecimento forçado; restrições logísticas quanto à capacidade de operar em profundidade e de forma independente por períodos prolongados; e, o que é mais importante, a necessidade de que qualquer reorganização seja relativamente neutra em termos de custos para a estrutura geral de forças do Exército. Contudo, mesmo dentro desses parâmetros — e se a instituição estiver disposta a adotar inovações do século XXI — ainda há possibilidades promissoras para recriar uma estrutura dinâmica de cavalaria que apoie todos os escalões táticos do Exército.

Opções para Soluções de Reconhecimento e Segurança

A seguir, são apresentadas quatro opções relativamente neutras em termos de custo para resolver a lacuna de capacidades de reconhecimento e segurança do Exército dos EUA.

Manter a iniciativa de BCT Rec Seg. Esse conceito doutrinário, que surgiu como uma medida provisória para compensar a perda dos RCB, RC/Div e malfadadas brigadas de vigilância do campo de batalha, representa o atual método do Exército dos EUA para possibilitar a manobra de corpo de exército e divisão. De acordo com a Publicação Técnica 3-91, Operações Divisionárias (ATP 3-91, Division Operations), uma BCT é “adaptada com meios adicionais para conferir-lhe maiores capacidades de busca de informações e sustentação [logística]”, ao mesmo tempo que se beneficia de “um relacionamento de treinamento com unidades que dispõem das capacidades de apoio de fogo, defesa antiaérea de curto alcance, engenharia e sistemas aéreos não tripulados de longo alcance”10. Embora a 1a BCT Stryker, da 4a Divisão de Infantaria, tenha testado, com sucesso, esse conceito, em 2017, a experiência revelou desafios no que tange a adaptar rapidamente as brigadas padronizadas às complicadas metodologias de reconhecimento em força e missões de proteção.

Apesar de críticas contundentes, a iniciativa de BCT Rec Seg detém um valor ainda não realizado para o Exército dos EUA como uma solução conveniente. Primeiro, ela leva em consideração as restrições de recursos para a criação de novas unidades, ao mesmo tempo que mantém um conjunto de BCT genéricas blindadas, Stryker e de infantaria para o emprego ao longo de um espectro maior de contingências, que podem não exigir a busca forçada de informações no escalão. Também aproveita a doutrina consagrada e a experiência institucional para capacitar algumas brigadas selecionadas a executar missões de cavalaria, quando providas de programas plurianuais de treinamento e reforço de meios. Se a solução for executada em conformidade com a doutrina, cada corpo de exército mantém uma brigada “organizada e treinada” como uma BCT Rec Seg para o emprego imediato em benefício de comandantes do Exército ou da força conjunta11.

Apesar dessas estipulações, a solução ad hoc se mostrou inadequada. Embora o exercício de 2014 tenha demonstrado que as BCT padronizadas exigem enorme integração, reforço, treinamento e tempo de processamento para cumprir efetivamente o papel, nenhum dos corpos de exército manteve um rodízio de BCT Rec Seg designadas e treinadas12. Além disso, questiona-se, seriamente, se a complexidade de executar o reconhecimento escalonado de eixo, zona e área, além dos combates nas missões de vigilância, cobertura e proteção, pode ser totalmente dominada por soldados e formações que não sejam permanentemente preparados para esse fim. Isso leva a questões mais amplas quanto à real capacidade de que a BCT Rec Seg contribua para decisões oportunas e claras por comandantes táticos de escalões mais elevados em ambientes fortemente contestados.

Carros de combate M1A1 Abrams da 3a Divisão Blindada saem em uma missão durante a Operação Desert Storm, 15 Fev 1991. Pode-se ver uma viatura de combate Bradley em segundo plano. (Foto do 1o Sgt D. W. Holmes II, Marinha dos EUA)

Reorganizar e converter regimentos de BCT em RCB, RC/Div e esquadrões de reconhecimento de brigada (Esqd Rec Bda). Essa opção refletiria uma reorganização total da força de cavalaria de BCT, para capacitar os corpos de exército e as divisões a moldarem, de modo proativo, “combates em profundidade” contra ameaças com poder de combate equiparado. A recriação de versões modernizadas dos antigos RCB e RC/Div — à semelhança das reformas efetuadas sob o programa Army of Excellence, que escalonaram os exploradores especificamente para combater os exércitos do Pacto de Varsóvia na Europa nos anos 80 — transferiria a preponderância de forças terrestres de reconhecimento e segurança do Exército para escalões táticos mais elevados13. Espelhando avanços nos anos 90, baseados no escalonamento do final da Guerra Fria, essa configuração deixaria cada BCT com um Esqd Rec Bda e cada batalhão de manobra com seu atual pelotão de exploradores, para possibilitar o êxito no combate aproximado14.

Esse tipo de reorganização radical daria prioridade à crescente importância de que os corpos de exército e divisões desintegrem, de forma decisiva e rápida, as sofisticadas defesas de negação de área, como um pré-requisito para o êxito das BCT subsequentes. Da mesma forma que os exploradores que apoiaram os corpos de exército e divisões na Operação Desert Storm, os RCB e RC/Div modernizados executariam missões de reconhecimento, contrarreconhecimento, proteção e cobertura em grandes profundidades e frentes, ao mesmo tempo que, em teoria, reduziriam os requisitos de BCT para a busca forçada de informações. Além disso, o escalonamento revitalizado da cavalaria exploraria a cooperação avançada entre diferentes domínios para permitir uma neutralização mais eficaz das redes de reconhecimento e ataque do inimigo, que atualmente ameaçam bloquear manobras expedicionárias aéreas e terrestres.

Apesar do claro benefício para os comandantes dos escalões mais elevados, uma redução do atual efetivo de cavalaria de cada BCT de um regimento completo para um único esquadrão acarretaria um custo óbvio: uma capacidade limitada para executar uma busca de informações forçada, rápida e ampla no nível da brigada. Embora o recente acréscimo de um terceiro batalhão de manobra a cada BCT possa compensar, em parte, esse custo, a questão pode se tornar crítica quando elas operarem ao longo de amplas frentes ou longos corredores, que possam prejudicar a capacidade dos RC/Div para moldar condições futuras. A reconfiguração exigiria, essencialmente, que os corpos de exército e as divisões empregassem estruturas de campo de batalha adaptadas sob medida, como o fizeram no caso da doutrina Batalha Ar-Terra, em que RCB e RC/Div avançados convergem efeitos em múltiplos domínios tanto para dominar áreas profundas quanto para mitigar as limitações das BCT15.

Reorganizar e converter BCT selecionadas em grupamentos de cavalaria modulares. Uma terceira opção, que exigiria uma reorganização de menor âmbito na força, seria converter duas ou três BCT em grupos de cavalaria reconfigurados, com regimentos de cavalaria modulares (veja a figura). À semelhança dos grupos de cavalaria mecanizados da Segunda Guerra Mundial, essa abordagem poderia empregar um conceito flexível de “combinação de recursos”, em que os grupos ou possibilitam a manobra no escalão corpo de exército como comandos unificados de reconhecimento e segurança ou, possivelmente, destacam regimentos autônomos para apoiar operações divisionárias específicas. Com base no sucesso do passado, os grupos de cavalaria modernizados teriam a autonomia para executar o reconhecimento forçado, contrarreconhecimento e ações de segurança de flanco com letalidade em diversos domínios em benefício de corpos de exército habitualmente alinhados e divisões temporariamente associadas16.

Figura. Grupamento de Cavalaria Modular. (Figura do autor)

[***Segundo o Manual de Campanha 3-90-2, Tarefas de Capacitação de Reconhecimento, Segurança e Táticas, Vol. 2 (FM 3-90-2, Reconnaissance, Security, and Tactical Enabling Tasks, Vol. 2), de março de 2013, 1-12, o termo reconnaissance-pull designa o tipo de reconhecimento que “determina quais rotas são adequadas para a manobra, onde o inimigo é forte ou fraco e onde existem brechas, puxando, assim, o grosso das forças em direção e ao longo do caminho de menor resistência. (…) o comandante utiliza os produtos do processo de preparação de inteligência do campo de batalha de modo interativo e repetitivo (…) obtém informações de combate dos meios de reconhecimento disponíveis para determinar uma linha de ação preferencial para a situação tática apresentada pelos fatores missão, inimigo, terreno e condições meteorológicas, meios e apoios disponíveis, tempo e considerações civis (MITeMeTeC)”. Por outro lado, reconnaissance-push é descrito da seguinte forma: “aprimora o cenário operativo comum, capacitando o comandante a finalizar o plano e apoiar operações preparatórias e decisivas. É normalmente utilizado depois que o comandante se compromete com um esquema de manobra ou linha de ação. (…) o comandante utiliza os produtos do processo de preparação de inteligência do campo de batalha de um modo interativo com as informações de combate dos meios de reconhecimento em apoio a uma linha de ação. A principal razão para preferir um método a outro é o tempo disponível”. — N. do T.]

Essa reorganização produziria muitas vantagens, antes fornecidas pelo escalonamento de RCB, RC/Div e Esqd Rec Bda, sem incorrer nos piores custos. Além de resolver, simultaneamente, a lacuna de capacidades de reconhecimento e segurança que hoje afeta os corpos de exército e as divisões, um conceito modular permitiria que as BCT mantivessem seus regimentos de cavalaria orgânicos para possibilitar a manobra aproximada. Ao conjugar o escalonamento, menores mudanças estruturais e a possibilidade de alinhar tanto forma quanto função, a abordagem em diversos domínios permitiria orientar a ordem de batalha tática do Exército dos EUA — desde batalhão até corpo de exército — para vencer disputas de maior amplitude e profundidade. Também refletiria uma mudança mínima no poder de combate do grosso das forças para a capacidade de reconhecimento e ataque avançado, com um maior foco no combate em profundidade para permitir um ritmo operativo sustentável.

No entanto, como todas as decisões relativas a recursos, converter BCT selecionadas em grupos de cavalaria controlados por corpos de exército geraria algumas desvantagens. A desvantagem mais óbvia seria uma pequena redução do efetivo geral de brigadas de combate de emprego geral do Exército, que são mais facilmente adaptáveis a uma gama mais ampla de operações de contingência. Um segundo problema, ainda que mais administrável, seria a possível falta de familiaridade entre regimentos de cavalaria destacados e divisões temporariamente enquadrantes, quando conjugados para operações com pouco aviso prévio. Apesar de os grupos provavelmente precisarem de um menor efetivo que as BCT (devido à substituição da maioria das companhias de infantaria por esquadrões de cavalaria), a reorganização também acarretaria uma menor capacidade para combater em terrenos complexos sem um reforço significativo.

Reorganizar e converter BCT selecionadas em forças-tarefas de reconhecimento e ataque. Uma opção final seria adotar uma abordagem mais ambiciosa e inovadora em relação à criação de formações tecnologicamente avançadas e de múltiplos domínios, projetadas para sobreviver, combater e vencer nos ambientes de combate do futuro. Esse conceito implementaria equipes baseadas na cavalaria com uma ênfase ligeiramente menor em blindados pesados e com uma excelente capacidade de operar de forma dispersa, em profundidade e com maior acesso em fogos conjuntos e de coalizão17. Da mesma forma que a nova iniciativa de Força-Tarefa de Múltiplos Domínios, as forças-tarefas de reconhecimento e ataque representariam uma solução inovadora para aproveitar as tecnologias que vêm surgindo em todas as Forças Singulares dos EUA e domínios operacionais18. O resultado potencial seria uma força-tarefa combinada especificamente projetada para desarticular e desintegrar as redes inimigas com uma capacidade de resposta e alcance operativo inéditos.

Baseando-se na versatilidade e agilidade da opção de grupos de cavalaria mecanizados, um conceito de reconhecimento e ataque avançado empregaria uma estrutura de unidades descentralizadas e modulares para capacitar os esforços de forças-tarefas conjuntas. Projetada para operar em áreas profundas por períodos mais prolongados com menos restrições logísticas, a formação poderia combinar exploradores blindados, leves e aéreos com uma forte inclusão de especialistas cibernéticos, espaciais, aéreos, marítimos, de robótica, de inteligência artificial, de operações especiais e informacionais, para permitir o máximo emprego de efeitos nos diferentes domínios19. O que é mais importante, essa experiência proporcionaria uma tabula rasa para a criação de uma unidade de reconhecimento e segurança baseada em terra, criada especificamente para servir como o núcleo de uma equipe de penetração de forças conjuntas, enquanto luta por informações em múltiplos domínios simultaneamente.

Apesar de atraente, esse tipo de conceito do futuro incorreria em risco ao se planejar uma formação sem precedentes, baseada em tecnologias novas e previstas. A dependência em relação a plataformas mais manobráveis com menores restrições logísticas — ou seja, trocar um certo grau de proteção por uma maior mobilidade — também pode acarretar riscos táticos durante as operações de reconhecimento. Em termos de poder de fogo, a dependência excessiva em relação a fogos conjuntos e à guerra eletrônica poderia gerar desvantagens durante ações de contrarreconhecimento. No entanto, apesar dos potenciais desafios, as tendências em tecnologia e combate podem possibilitar e, de fato, exigir a letalidade miniaturizada e dispersa. No mínimo, a força-tarefa pode servir como um objetivo de modernização para adaptar forças terrestres tradicionais às operações em múltiplos domínios.

Rumo ao Combate em Áreas Avançadas

Conforme observado no documento The U.S. Army Concept for Multi-Domain Combined Arms Operations at Echelons Above Brigade 2025-2045 (“O Conceito do Exército dos EUA para Operações de Armas Combinadas em Múltiplos Domínios em Escalões Acima de Brigada 2025-2045”), o Exército dos EUA tem um “requisito contínuo de obter e manter contato em todos os domínios” e, ao mesmo tempo, “impedir que um adversário ou inimigo obtenha posições de vantagem”20. Isso significa lidar com lacunas críticas de reconhecimento e segurança que ameaçam o êxito no combate terrestre em larga escala. Embora possa redobrar seus esforços para aprimorar o atual conceito de BCT Rec Seg, o Exército dos EUA também poderia reformular a antiga estrutura de RCB, RC/Div e Esqd Rec Bda ou converter algumas BCT ou forças de reconhecimento e ataque em grupos de cavalaria flexíveis. De qualquer forma, o Exército deve tomar medidas para criar unidades escalonadas — com fogos de diferentes domínios em apoio direto — que sejam otimizadas para proporcionar liberdade de ação e possibilitar o ritmo ao longo de cenários competitivos.

Essa necessidade imperativa encontra maior relevância na forma pela qual o Exército contribui para campanhas conjuntas e multinacionais. O Manual de Campanha 3-0, Operações (FM 3-0, Operations), afirma que o “rápido emprego do poder de combate conjunto pode ser necessário para entrar em um teatro de operações (através de entrada forçada conjunta) ou para retardar, impedir ou cessar a agressão inicial de um inimigo e negar-lhe seus objetivos iniciais”21. Isso significa que, mesmo enquanto as forças-tarefas conjuntas estendem, continuamente, a geometria do campo de batalha com efeitos em múltiplos domínios, elas precisam de forças-tarefas terrestres de armas combinadas capazes de lutar para obter informações em áreas profundas cada vez mais vastas. As formações de cavalaria, se providas de capacidades fortes e praticadas em diferentes domínios, continuam sendo instrumentos ideais para estender o alcance operativo terrestre para apoiar campanhas conjuntas de maior escopo e escala.

As forças de reconhecimento e segurança do Exército dos EUA também fornecem importantes contribuições táticas para os esforços de coalizão. Embora muitos aliados bilaterais e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) mantenham brigadas de combate de emprego geral, poucos deles empregam forças-tarefas combinadas otimizadas para executar o reconhecimento forçado e o contrarreconhecimento em escalões táticos mais elevados22. Isso significa que as BCT Rec Seg ou formações de cavalaria equivalentes continuarão sendo um acréscimo essencial a operações multinacionais de grande vulto que incluam a busca de informações negadas em profundidade. Em regiões como o Leste Europeu, o Golfo Pérsico e o Leste Asiático, onde os corpos de exército e as divisões talvez tenham de operar ao longo de vastos terrenos contíguos e não contíguos, a discrepância entre a demanda de coalizão por exploradores de armas combinadas no escalão e a deficiência do Exército está se tornando cada vez mais problemática.

Integrantes do 2o Batalhão, 11o Regimento de Cavalaria Blindado, apoiados por uma viatura de combate Bradley, avançam cautelosamente para uma área de casamatas durante um ataque à fábrica de armas de Hateen, em Babil, Iraque, 26 Mar 2005. (Foto cedida pelo Departamento de Defesa dos EUA)

Essas questões vão além das considerações operacionais, inserindo-se em requisitos permanentes de manter o conhecimento institucional. A perda dos RCB e RC/Div, além das décadas de foco na contrainsurgência e de lapsos na iniciativa de BCT Rec Seg, significa que o Exército dos EUA está perdendo, rapidamente, sua base organizacional de experiência para executar o reconhecimento e segurança em maior escala e complexidade23. Embora os regimentos de cavalaria das BCT tenham mantido — e aprimorado — a expertise tática para possibilitar a manobra aproximada nos últimos anos, sua ausência nos níveis de corpo de exército e divisão gera riscos para a capacidade do Exército de moldar, agressivamente, as condições ao longo de eixos mais profundos e frentes mais amplas contra adversários com poder de combate equiparado em conflitos com a mesma dimensão da Guerra do Golfo.

Considerando o escopo do problema, as possíveis respostas às deficiências de reconhecimento e segurança do Exército dos EUA devem se desenvolver no contexto de soluções doutrinárias, materiais e culturais integradas. Da mesma forma que a Força combinou as reformas do programa Army of Excellence — que implementaram plataformas de combate modernizadas, ampliaram equipes ar-terra e reformularam o escalonamento de RCB e RC/Div — com conceitos emergentes da doutrina Batalha Ar-Terra, as soluções futuras devem ser igualmente inovadoras e abrangentes24. Com seu novo conceito operativo de múltiplos domínios, o Exército dos EUA hoje tem mais uma oportunidade para modernizar uma ordem de batalha criada para um fim específico, que combine novas tecnologias, formações escalonadas e uma doutrina flexível, para possibilitar o êxito ao longo de campos de batalha mais amplos no tempo e no espaço.

O dilema de reconhecimento e segurança do Exército dos EUA reflete, em última análise, um requisito permanente de unir a busca forçada de informações ao longo dos níveis tático e operacional da guerra. Reconhecendo a crescente importância de que os corpos de exército e divisões influenciem de modo proativo os resultados em áreas profundas logo no início da campanha e de forma decisiva, a disponibilidade de formações de cavalaria escalonadas de apoio direto, com recursos em diferentes domínios, servirá de base, em parte, para a preparação do Exército para penetrar, desintegrar e desarticular sofisticadas defesas adversárias. Se os conflitos passados revelaram a importância de combater em áreas avançadas com forças-tarefas combinadas, os campos de batalha do futuro decerto exigirão o mesmo, e a inexistência de soluções de apoio direto para lacunas críticas de capacidades pode ocasionar um grande custo.


Referências

  1. “Milley: Army Not Fully Ready for Large-Scale Combat”, Association of the United States Army, 7 Apr. 2016, acesso em 3 jul. 2019, https://www.ausa.org/news/milley-army-not-fully-ready-large-scale-combat.
  2. David Barno e Nora Bensahel, The Future of the Army: Today, Tomorrow, and the Day after Tomorrow (Washington, DC: Atlantic Council, September 2016), p. 11.
  3. Field Manual (FM) 17-95, Cavalry Operations (Washington, DC: Government Printing Office, 24 Dec. 1996 [obsoleto]), 1-5; William S. Nance, “Lost Sabers: Why We Need Operational Cavalry and How to Get It Back”, eARMOR 123, no. 4 (October-December 2014): p. 51-55.
  4. Robert S. Cameron, To Fight or Not to Fight? Organizational and Doctrinal Trends in Mounted Maneuver Reconnaissance from the Interwar Years to Operation Iraqi Freedom (Fort Leavenworth, KS: Combat Studies Institute Press, 2010), p. 316-17.
  5. James A. Bynum, Operation Desert Shield/Storm After Action Report (Fort Belvoir, VA: U.S. Army Research Institute for the Behavioral and Social Science, 27 Jun. 1991), slide 3FX39.
  6. Cameron, To Fight or Not to Fight?, p. 71.
  7. Donn A. Starry, Mounted Combat in Vietnam (1978; repr., Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2002), p. 73, acesso em 12 jul. 2019, https://history.army.mil/html/books/090/90-17-1/CMH_Pub_90-17-1.pdf.
  8. Cameron, To Fight or Not to Fight?, p. 293.
  9. Nathan Jennings et al., “The Return of Cavalry: A Multi-Domain Battle Study”, eARMOR 128, no. 3 (Summer 2017): p. 18-22.
  10. Army Techniques Publication 3-91, Division Operations (Washington, DC: U.S. Government Printing Office, October 2014), 1-9.
  11. Ibid., 1-8.
  12. Curt Taylor e Joe Byerly, “Raider Brigade White Paper—Fighting for Information in a Complex World: Lessons from the Army’s First Reconnaissance and Security Brigade Combat Team” (18 Sept. 2017), p. 2.
  13. John L. Romjue, The Army of Excellence: The Development of the 1980s Army, TRADOC Historical Monograph Series (Washington, DC: U.S. Army Center of Military History, 1997), p. 94-95.
  14. FM 17-95, Cavalry Operations, 1-10, 1-18-1-21.
  15. Rumjue, The Army of Excellence, p. 11, p. 94-95.
  16. Joseph J. Dumas, “Modern Application of Mechanized-Cavalry Groups for Cavalry Echelons above Brigade”, eARMOR 131, no. 3 (Fall 2018): p. 3-4.
  17. Douglas A. Macgregor, Breaking the Phalanx: A New Design for Landpower in the 21st Century (Westport, CT: Praeger, 1997), p. 79-81.
  18. Sydney J. Freedberg Jr., “New Army Unit to Test Tactics: Meet the Multi-Domain Task Force”, Breaking Defense, 21 Mar. 2017, acesso em 5 jul. 2019, https://breakingdefense.com/2017/03/new-army-unit-to-test-tactics-meet-the-multi-domain-task-force/.
  19. Jennings et al., “The Return of Cavalry”, p. 18-22.
  20. The U.S. Army Concept for Multi-Domain Combined Arms Operations at Echelons above Brigade 2025-2045: Versatile, Agile, and Lethal, version 1.0 (Washington, DC: U.S. Government Publishing Office [GPO], September 2018), p. 14, acesso em 5 jul. 2019, https://usacac.army.mil/sites/default/files/documents/ArmyEABConcept.pdf.
  21. FM 3-0, Operations (Washington, DC: U.S. GPO, 6 Oct. 2017), 1-13.
  22. Daniel Gouré, Addressing NATO’s Near-Term Capability Gaps (Arlington, VA: Lexington Institute, June 2018), p. 8-9, p. 11.
  23. Taylor e Byerly, “Raider Brigade White Paper—Fighting for Information”, p. 17.
  24. Rumjue, The Army of Excellence, p. 39-40, p. 85-89.

O Maj Nathan Jennings é estrategista do Exército dos EUA e instrutor de História no Command and General Staff College, Forte Leavenworth, Kansas. Serviu em duas missões de combate no Iraque, lecionou História na Academia Militar dos EUA e atuou como planejador estratégico no Afeganistão. O Maj Jennings concluiu o mestrado em História pela University of Texas at Austin e o mestrado em Artes e Ciências Militares pela U.S. Army School of Advanced Military Studies.

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Terceiro Trimestre 2020