Revista Profissional do Exército dos EUA

Edição Brasileira

As Formas e Métodos de Operações Militares da Rússia

Os Meios de Implementação de Conceitos

Ten Cel (Res) Timothy Thomas, Exército dos EUA

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O Gen Valery Gerasimov (à frente), Chefe do Estado-Maior Geral da Forças Armadas da Federação Russa e Primeiro Vice-Ministro de Defesa da Rússia, e Nikolai Pankov (à esquerda), Vice-Ministro de Defesa da Rússia, comparecem à recepção em comemoração do 70o aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista durante a Grande Guerra Patriótica de 1941–1945, em 09 Mai 15, no Kremlin, em Moscou. (Foto de Alexei Nikolsky, serviço de imprensa presidencial russo/TASS/Alamy Live News)

Ao conduzirem operações militares ou empregarem tropas, as Forças Armadas da Rússia recorrem ao que denominam as formas e métodos de guerra. A mesma terminologia vem sendo utilizada há mais de 40 anos, sendo constantemente atualizada para acompanhar os avanços da ciência e tecnologia militar. Por exemplo, o Chefe da principal diretoria de operações do Estado-Maior Geral da Rússia, General Sergey Rudskoy, afirmou recentemente: “As abordagens de organização e condução das operações militares estão mudando, e vêm surgindo novas formas e métodos de criar, desdobrar e empregar tropas ”1.

Embora já existam há décadas e ocupem um lugar de destaque no pensamento militar russo, esses termos têm sido negligenciados pelos analistas ocidentais. Talvez sejam frequentemente ignorados no Ocidente por parecerem ter um caráter quase neutro ou banal, como se não fosse necessária nenhuma explicação.

A análise adiante tentará mudar essa percepção por meio do seguinte método: uma demonstração do interesse do Chefe do Estado-Maior Geral da Rússia, General Valery Gerasimov, no tema; uma descrição de como as formas e métodos da Rússia foram definidos, além dos antecedentes históricos dos termos; evidências do repetido emprego dos conceitos na atualidade, envolvendo uma variedade de operações; e uma explicação sobre como eles estão relacionados à tática. O verbo “tentar” foi inserido de propósito, porque, mesmo após examinar inúmeros artigos russos sobre formas e métodos, fica claro que a verdadeira essência dos termos permanece difícil de apreender e em constante evolução. Com respeito a este último aspecto, os avanços nos campos da inteligência artificial e computação quântica introduzirão novas formas e métodos. Assim, a contínua pesquisa e observação continuam sendo necessárias. O objetivo deste artigo é, simplesmente, elucidar um tema muito importante para a consideração do leitor.

Os termos são extremamente importantes, por serem os meios de implementação conceitual das operações. Entender formas e métodos ajudará os analistas a visualizar melhor o modo pelo qual a Rússia pretende empregar suas forças. Também é importante saber o significado de formas e métodos para que, ao se reunirem para debater e trocar conceitos, os comandantes russos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) possam se entender melhor. Essa é uma melhor abordagem para compreender as intenções russas do que aplicar modelos ou conceitos norte-americanos (ex.: combate em múltiplos domínios, guerra híbrida, problemas de “área cinzenta”) aos empregos de força russos, crendo que um lado entende o outro.

Formas e Métodos segundo o General Gerasimov, Chefe do Estado-Maior Russo

O Chefe do Estado-Maior Geral da Rússia é um forte defensor do conceito de formas e métodos, o que ressalta ainda mais sua importância. Em um discurso proferido na Academia de Estado-Maior Geral em 2013, intitulado “Principais Tendências no Desenvolvimento das Formas e Métodos de Empregar as Forças Armadas e Atuais Tarefas da Ciência Militar Relacionadas ao seu Aperfeiçoamento” (e não “O Valor da Previsão”, como muitos creem), Gerasimov observou que existem formas e métodos assimétricos de operações2. As ações assimétricas, afirmou, possibilitam equiparar-se à superioridade de um inimigo em uma luta armada e têm sido amplamente disseminadas. As forças de operações especiais e a oposição interna estão entre as forças que conduzem ações assimétricas, que criam uma frente de luta em constante movimento em todo o território do Estado oponente. As formas e métodos de efeitos informacionais também estão sendo constantemente aprimorados. O Estado-Maior Geral da Rússia vem trabalhando em formas e métodos para o emprego das forças aeroespaciais, e Gerasimov convocou a academia a participar ativamente desse esforço3.

Um ano depois, na mesma instituição, Gerasimov delineou a estrutura do futuro complexo científico militar das Forças Armadas da Rússia4. Formas e métodos da luta armada estavam sendo estudados no Centro de Estudos Militares e Estratégicos do Estado-Maior Geral, afirmou ele, enquanto organizações de ciência e pesquisa examinavam novas formas e métodos de guerra adequados a especialidades específicas. Por exemplo, as forças terrestres pesquisavam como implementar o desenvolvimento de formas e métodos de emprego de forças terrestres, armas e equipamentos militares convencionais em benefício das forças terrestres e aeroterrestres por meio de três instituições centrais de ciência e pesquisa. A pesquisa da Força Aérea no campo de desenvolvimento de formas e métodos, realizada na Instituição de Ciência e Pesquisa da Força Aérea, incluía como empregar sistemas, armas e equipamentos militares aéreos e aeroespaciais. Por fim, a Marinha conduzia pesquisas no campo de desenvolvimento de formas e métodos de emprego de sistemas militares navais e criava e desenvolvia armas e equipamentos militares em benefício próprio, em seu Centro de Treinamento e Pesquisa Militar5.

Em um discurso proferido na academia em 2015, Gerasimov não mencionou formas e métodos. Entretanto, ele as mencionou em 2016 e 2017, no mesmo local. Na apresentação de 2016, declarou que, hoje em dia, em uma era de globalização, fracas fronteiras estatais e novos meios de comunicação e informação, a mudança das formas de resolver conflitos interestatais passou a ser um fator muito importante, dando ímpeto ao desenvolvimento de métodos de operações militares. Nos conflitos contemporâneos, os métodos de conflito utilizados estão mudando em direção ao emprego abrangente de medidas políticas, econômicas, informacionais e outras medidas não militares implementadas com o apoio da força militar. Gerasimov acrescentou que, ao discutir a introdução de novas formas e métodos de luta armada, não se deve esquecer a experiência do país na Grande Guerra Patriótica, na luta contra os mujahedins no Afeganistão, em atividades de manutenção da paz e no combate à pirataria. Além disso, as experiências na Crimeia e na Síria deveriam ser de especial interesse6.

É preciso dedicar especial atenção à definição de medidas preventivas para combater o desencadeamento da “guerra híbrida” contra a Rússia e seus aliados.

Finalmente, em 2017, Gerasimov declarou que os atuais conflitos militares diferem dos conflitos do passado com respeito à composição de participantes, armas empregadas e formas e métodos de atividades das tropas. Acrescentou:

Gostaria de me alongar sobre as tarefas prioritárias da Academia de Ciências Militares e da ciência militar como um todo. Em primeiro lugar está o estudo de novas formas de enfrentamento interestatal e o desenvolvimento de métodos efetivos para combatê-las. É preciso dedicar especial atenção à definição de medidas preventivas para combater o desencadeamento da “guerra híbrida” contra a Rússia e seus aliados. É necessário estudar, efetivamente, os elementos dos conflitos militares contemporâneos e, a partir disso, desenvolver formas e métodos eficazes de operações de tropas e força sob várias condições7.

Definições

Segundo o Dicionário Enciclopédico Militar russo [Voennyy Entsiklopedicheskiy Slovar’], de 1983, “formas” de operações militares são empregadas em conformidade com o escopo ou escala do combate. Incluem operações, engajamentos, combates e ataques. Também incluem capacidades das armas combatentes, os objetivos das operações militares e a natureza das missões atribuídas8. Um artigo publicado na revista Military Thought 25 anos depois demonstrou o desenvolvimento adicional do conceito. Em 2008, os autores O. V. Korol e N. L. Romas afirmaram que o significado do termo “forma” descreve a organização da substância das modalidades de ações de combate. Representa as restrições baseadas em objetivos, organizacionais (incluindo aspectos de comando e controle), espaciais, temporais e quantitativas do emprego das Forças Armadas. É o lado organizacional das ações das tropas9. As unidades de guerra eletrônica se enquadram nesses critérios, assim como unidades de combate de todos os tipos, incluindo organizações conjuntas e inter-Forças. (Assim, entendo que formas sejam a organização das operações, engajamentos, combates e ataques.)

Segundo o Dicionário Enciclopédico Militar de 1983, os “métodos” incluem a combinação de formas, técnicas modernas e procedimentos empregados em uma sequência lógica específica, com o intuito de obter soluções eficazes para problemas da ciência militar. Essa é uma área aplicada da metodologia da teoria e prática militar. Pode ser geral e utilizada, assim, para pesquisas de qualquer tipo ou pode ser mais específica, como no caso de determinar o procedimento para resolver um problema em particular10. Quase 27 anos depois, esse conceito também foi atualizado. Um artigo de 2010 da revista Military Thought descreveu uma definição apresentada pela publicação em 1997, segundo a qual os “métodos” consistiam em uma sequência e técnica para empregar forças e meios a fim de cumprir tarefas em uma operação. Por não estarem totalmente satisfeitos com essa definição, os autores M. G. Valeyev e N. L. Romas definiram “método de guerra” como uma maneira específica pela qual as tropas cumprem sua missão mediante o emprego de ações características da essência, técnicas e regras para seu uso e combinação de processos de um método11. Por exemplo, uma técnica poderia ser pegar um oponente de surpresa. Sua análise sugeria que os armamentos das tropas (isto é, o desenvolvimento de armas) e os princípios da arte militar (que poderiam ser ações simultâneas ou consecutivas envolvendo estratégia, arte operacional ou tática) têm o maior impacto sobre os métodos12.

Portanto, a meu ver, “formas” parecem ser organizações, enquanto “métodos” se referem às armas e à arte militar. Os analistas ocidentais devem continuar a acompanhar esses dois termos e verificar se há atualizações ou esclarecimentos. Em outras palavras, ainda há um pouco de ceticismo quanto ao seu significado exato, embora não haja dúvida de que eles continuam a ser utilizados.

Antecedentes Históricos

Conforme observado anteriormente, há uma longa série de evidências quanto ao uso de formas e métodos pela Rússia. Por exemplo, em 1971, o General Aleksandr A. Strokov foi o autor de “Mudanças nos Métodos e Forma de Conduzir Operações Militares”, no livro Voyennaya Istori (“História Militar”). Afirmou que o caráter violento da guerra predeterminará seus objetivos e os métodos e formas de conduzi-la13. Em 1984, em um artigo na publicação Military Thought, o autor N. N. Kuznetsov observou que “as leis da luta armada incluem a dependência de seu desenrolar e resultado com respeito à correlação de poder de combate entre as forças dos lados adversários; […] a dependência de formas e métodos de operações com respeito às armas, equipamentos e pessoal; e a interdependência das formas e métodos de operações sendo conduzidos em diferentes níveis”14. Em 1991, o General I. N. Rodionov escreveu que a condução eficaz de operações estratégicas é “impossível sem um conhecimento das leis objetivas da guerra, correta previsão da evolução das operações e escolha das formas e métodos mais efetivos de operações militares”15. Em 1997, S. A. Komov escreveu “Dos Métodos e Formas para a Condução da Guerra de Informação”. Afirmou que as formas e métodos de obter a superioridade de informações sobre um inimigo são elementos-chave da disciplina “guerra de informação”16. Em 2002, o General V. V. Bulgakov escreveu “Conflito Armado: Formas e Métodos de Operações de Tropas”. Afirmou que as formas e métodos para empregar diferentes forças e meios são variados, desde as operações “clássicas” até as ações não convencionais, que diferem em operações (em termos de escala, objetivos, missões e forças e meios utilizados).

Formas de operações englobam ações ofensivas em que os métodos incluam manobra, ataques frontais, assaltos, cerco; escoltas de colunas em que os métodos incluam segurança da marcha, busca e destruição, segurança de instalações; ações táticas especiais em que os métodos incluam emboscada, varreduras de terreno, isolamento de áreas; e proteção da fronteira estatal em que os métodos incluam busca, varreduras, isolamento, manutenção de posição, etc. Formas de operações de combate incluem as conduzidas em zonas de responsabilidade em que os métodos sejam isolar áreas e destruir o inimigo; ataques de surpresa em que os métodos incluam manobra, capturar instalações, destruição de forças inimigas; tomada de áreas edificadas em que os métodos incluam operações de assalto, varreduras, perseguições de criminosos, isolamento de áreas; cessação de distúrbios em massa e manutenção da lei marcial em que os métodos incluam a imposição de toque de recolher, patrulhamentos de área, barreiras táticas; e serviços de barreira tática em que os métodos incluam sentinela, patrulhamento, etc.17

Formas e métodos são introduzidos, muitas vezes, como uma maneira de abordar temas que cobrem várias armas, quadros e serviços. Em 2006, V. N. Zaritsky expressou sua opinião sobre as operações em um artigo intitulado “Formas e Métodos de Empregar Tropas e Artilharia de Mísseis em Operações de Armas Combinadas”18. Em 2011, A. V. Dolgopolov e S. A. Bogdanov escreveram “A Evolução das Formas e Métodos para Conduzir a Luta Armada em Condições Centradas em Rede”19. Em 2016, A. P. Korabelnikov escreveu “Tendências Promissoras no Desenvolvimento de Formas e Métodos de Defesa Aeroespacial na Federação Russa”20.

Esse breve resumo representa apenas uma pequena amostra da quantidade de artigos e apresentações que incluem o conceito de formas e métodos. Trata-se, evidentemente, de uma abordagem-padrão de implementação da estratégia e arte operacional, tanto na época soviética quanto na atualidade.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, assiste à apresentação de um robô de combate durante visita ao Instituto Central de Pesquisa Científica em Engenharia Mecânica de Precisão, Klimovsk, entorno de Moscou, 20 Jan 15. (Foto cedida pelo site oficial da Presidência da Rússia)

Evidências da Importância e Uso Continuado dos Conceitos

A recente “Estratégia de Segurança Nacional” da Rússia observa que os objetivos são alcançados com a implementação da política militar mediante a dissuasão estratégica, prevenção de conflitos armados, aperfeiçoamento das organizações militares e de formas e métodos para o desdobramento das forças armadas e aumento da prontidão para a mobilização. A nova “Doutrina de Segurança da Informação” da Rússia observa que as tarefas de organizações estatais incluem aprimorar as formas e métodos de interação entre forças prontas para prover a segurança da informação. Até mesmo os serviços de Inteligência da Guarda Nacional da Rússia “herdaram as melhores tradições e adotaram formas e métodos modernos de operações”21. Assim, o termo é utilizado em uma variedade de circunstâncias quando se refere aos meios militares e de segurança do Estado.

Os ministros e comandantes militares russos utilizam os conceitos com frequência. Por exemplo, o Ministro da Defesa Sergey Shoygu, em um discurso proferido em um congresso de educação em novembro de 2016, observou que o treinamento adquire especial importância “em condições de um rearmamento de larga escala do Exército e da Marinha e de desenvolvimento de novas formas e métodos de operações de combate”22. Em um outro exemplo, os comandantes do Distrito Militar Ocidental relataram estudar a organização das atividades militares para o desenvolvimento de novas formas e métodos de conduzir as operações de combate23.

As perspectivas de dois renomados teóricos russos conferem um foco adicional ao debate. Entre 2010 e 2017, S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov escreveram artigos sobre guerra assimétrica, guerra de nova geração, futurologia, a arte da guerra e previsão da futura guerra. Em cada artigo, eles enfatizaram as formas e métodos de combate. Por exemplo, observaram, em seu artigo sobre guerra assimétrica, que as operações assimétricas são caracterizadas por diferenças qualitativas no emprego de novos (não tradicionais) meios de luta armada e formas e métodos de conduzi-la, sendo, no entanto, próximos, em conteúdo, à estratégia de operações indiretas24. Medidas assimétricas incluem a implementação de ações para provocar apreensão nos meios militares mais vulneráveis e outras instalações estrategicamente importantes de um oponente (órgãos de comando e controle; importantes organizações industriais; represas, abastecimento de água, usinas nucleares; e instalações de comunicações cruciais)25. A estratégia de operações indiretas é caracterizada pela multiplicidade de formas e métodos de operações, incluindo a condução de confrontos informacionais e remotos (sem contato), o uso segmentado de fogos e ataques (terrestres, aéreos, marítimos) e, em um futuro não muito distante, operações antissatélite26.

Em um artigo de 2012, afirmaram que novas tecnologias e conceitos como operações centradas em rede desempenham um papel significativo nas formas e métodos de futuros conflitos27. Em seu artigo de 2013 sobre guerra de nova geração, asseveraram que novas formas e métodos de emprego das forças conjuntas em operações e combates evoluirão28. Ao discutirem a futurologia, afirmaram que as inovações devem ser levadas em consideração, juntamente com mudanças nas formas e métodos de combate29. Em um artigo sobre a arte da guerra, opinaram que a arte militar do século XXI terá diferentes formas e métodos de combate, em que predominarão as ações não militares e indiretas, com os estratagemas e a surpresa ajudando em sua aplicação30. Chekinov e Bogdanov asseveram que as formas e métodos são as tarefas mais importantes da arte militar31. Por fim, afirmaram que previsões de futuras guerras requerem uma hábil combinação de medidas militares, medidas não militares e medidas especiais não violentas, utilizando uma variedade de formas e métodos e uma mistura de medidas políticas, econômicas, informacionais, tecnológicas e ambientais, principalmente mediante a exploração da superioridade de informações32.

Naturalmente, muitos outros líderes e autores russos discutem as formas e métodos para implementar conceitos. Por exemplo, em um artigo de 2015, o General A. V. Kartapolov observou que estavam sendo desenvolvidos formas e métodos não tradicionais. O novo tipo de guerra da Rússia inclui métodos “assimétricos” para confrontar um inimigo33. Por fim, observou-se que a Academia de Estado-Maior Geral e a Fundação de Pesquisa Avançada da Rússia (à semelhança da Defense Advanced Research Projects Agency, dos EUA) organizaram uma competição, que resultou no recebimento de 351 trabalhos; um dos trabalhos premiados foi “Guerras do Futuro: Formas e Métodos”34.

Tática

Na edição de junho de 2016 de Armeyskiy Sborrnik (Revista do Exército), os autores V. Kuznetsov e V. Verem’ev abordaram as formas e métodos de ações táticas em tempo de paz, em um período de ameaça direta de agressão e em tempo de guerra. A abordagem conceitual dos autores em relação a ações táticas foi apresentada aos leitores da revista como um fórum de discussão para análises adicionais. São relacionados a seguir os elementos do esquema dos autores para os três períodos em questão segundo tipo, forma e método de emprego tático.

Título: A Teoria e Prática da Preparação e Condução de Operações Táticas em Vários Períodos
Ações táticas: tipos, formas e métodos
Em tempo de paz – Os tipos são: resgate, liquidação, reconstrução, desdobramento regional, evacuação, apoio, marcha e contraterrorismo; as formas são: especial, ataque, manobra, combate e não tradicional; e os métodos são: liquidação, evacuação, lançamentos, acompanhamento, ataque, isolamento, emboscada, bloqueio e transporte.
Em um período de ameaça direta de agressão –
Os tipos são: segurança, desdobramento regional, apoio, mobilização, marcha e contraterrorismo; as formas são: especial, ataque, combate, manobra e desdobramento; e os métodos são: isolamento, emboscada, acompanhamento, ataque, bloqueio, lançamentos e transporte.
Em tempo de guerra – Os tipos são: ofensiva, defensiva, combate de encontro; retirada, desdobramento regional, ações de cerco e marcha; as formas são: especial, ataque, combate e manobra; e os métodos são: ataque, penetração, ataque de surpresa, assalto, emboscada e desbordamento35.

As armas não parecem ter sido abordadas na discussão dos autores.

Conclusões

Assim, os termos aparentemente inofensivos “formas e métodos” de ações são, na verdade, muito importantes, porque se referem à maneira que a Rússia utilizará para implementar conceitos em busca de vitórias em futuras guerras. Questões específicas, como o modo de emprego da desinformação, os princípios da guerra, o uso da engenhosidade e outras ações militares, podem ser encontradas nesse âmbito. Formas e métodos também incluem métodos não militares, indiretos e assimétricos.

O Gen Ex Makhmut Gareev afirmou que ataques cibernéticos velados, que podem provocar graves complicações nos sistemas energético, bancário e financeiro de países oponentes, confundem as mentes dos inimigos sobre contra quem declarar guerra36. Além disso, as forças podem incluir o uso de forças de operações especiais e da oposição interna para a criação de uma “frente em contínua operação em todo o território do Estado oponente, bem como a influência informacional, cujas formas e métodos estão sendo continuamente aprimorados”37.

A esta altura, deve estar mais claro por que a palavra “tentar” foi utilizada em relação a descrever o significado do conceito de “formas e métodos” para as Forças Armadas russas no início deste artigo, assim como a importância que esse conceito parece ter para elas. Há muitos significados contraditórios que parecem oscilar entre os dois termos. O mais fácil de entender, do ponto de vista do presente autor, continua sendo a definição de formas (organização) oferecida por Korol e Romas e a definição de métodos (armas e arte militar) de Valeyev e Romas.

Assim, ao depor perante o Comitê das Forças Armadas da Câmara sobre operações de informação russas, em março de 2017, utilizei formas e métodos para explicar as ações russas no ambiente informacional, oferecendo a seguinte explicação aos congressistas presentes:

Uma “forma” é uma organização, o que, com respeito à guerra de informação, pode incluir elementos da mídia internacional, como Russia Today ou Sputnik, ou avanços militares, como a criação de “companhias científicas” de guerra cibernética e eletrônica; um corpo cibernético, que foi anunciado em 2013, mas para o qual não foi fornecida nenhuma informação adicional; forças de operações de informação, anunciadas em 2017; e a Fundação de Pesquisa Avançada, equivalente russo à Defense Advanced Research Projects Agency, dos EUA. Essas formas ou organizações implementam métodos.

Os “métodos” se dividem em duas partes: armas e arte militar. As armas incluem hackers, técnicas de controle reflexivo, trolls, desinformação, capacidades de dissuasão, satélites assassinos e outros agentes de destruição ou influência. A arte militar inclui o emprego de capacidades indiretas e assimétricas para cumprir objetivos específicos, como a exploração da livre imprensa do Ocidente ou um ataque indireto contra a infraestrutura cibernética de outra nação. O excelente contingente de criadores de algoritmos da Rússia garante que a nação permanecerá forte por muitos anos com respeito à criação de software que sirva como armas capazes de espionar, persuadir ou destruir38.

Independentemente de meu entendimento do conceito estar certo ou não, as definições de Korol, Valeyev e Romas oferecem, com efeito, um modo de pensar sobre as operações russas. Pensar sobre o modo pelo qual uma força seria organizada e sobre que tipos de arma (tradicional, não tradicional, cognitiva, etc.) e elementos da arte militar (dissimulação, tipos de manobra, etc.) poderiam ser utilizados ajuda a estabelecer, no processo de reflexão do estado-maior, a forma pela qual uma força poderia ser disposta contra ele.

Claramente, a Rússia utilizou e continua a desenvolver, com base nas diretrizes de Gerasimov, formas e métodos de guerra que se adaptem aos atuais avanços situacionais e técnicos. Esses são indicadores-chave sobre como a futura guerra será organizada e, possivelmente, até mesmo conduzida. Os analistas ocidentais se beneficiariam de estudar mais a fundo as definições dessas duas palavras. Deixar de fazê-lo seria tão imprudente quanto se os russos não buscassem entender termos norte-americanos como híbrido, área cinzenta e combate em múltiplos domínios.


Referências

  1. Sergey Rudskoy, “Generator of Ideas and Schemes. Russian Federation Armed Forces General Staff Main Directorate for Operations is 316 Years Old on 20 February”, Red Star Online, 18 Feb. 2018.
  2. V. V. Gerasimov, “Principal Tendencies in the Development of the Forms and Methods of Employing Armed Forces and Current Tasks of Military Science Regarding Their Improvement”, Journal of the Academy of Military Science 1 (2013): p. 24–29. “The Value of Foresight” (“O Valor da Previsão”) foi o título de um artigo sobre a apresentação de Gerasimov em 2013 no Military-Industrial Courier (VPK), e não o título real de seu discurso.
  3. Ibid.
  4. V. V. Gerasimov, “The Role of the General Staff in the Organization of the Country’s Defense in Accordance with the New Statute on the General Staff”, Journal of the Academy of Military Science 1 (2014): p. 14–22.
  5. Ibid.
  6. V. V. Gerasimov, “The Organization of the Defense of the Russian Federation under Conditions of the Enemy’s Employment of ‘Traditional’ and ‘Hybrid’ Methods of Conducting War”, Journal of the Academy of Military Science 2 (2016): p. 19–24.
  7. V. V. Gerasimov, “Contemporary Warfare and Current Issues for the Defense of the Country”, Journal of the Academy of Military Science 2 (2017): p. 9–13.
  8. Voennyy Entsiklopedicheskiy Slovar’ [Dicionário Enciclopédico Militar], ed. N. V. Ogarkov (Moscow: Military Publishing House, 1983), p. 782.
  9. O. V. Korol e N. L. Romas, “Form of Military Actions: On the Meaning of the Category”, Military Thought: A Russian Journal of Military Theory and Strategy [em russo] 3 (2008): p. 149–53.
  10. Voennyy Entsiklopedicheskiy Slovar’, p. 440.
  11. M. G. Valeyev e N. L. Romas, “Choosing Methods of Warfare”, Military Thought 6 (2010): p. 4.
  12. Ibid., p. 5, p. 6, p. 8.
  13. A. A. Strokov, “Changes in the Methods and Form of Conducting Military Operations”, Voyennaya Istoriya [“História Militar”] (Moscow: Voyenizdat, 1971), p. 340–45, excertos, apud Harriet Fast Scott e William F. Scott, eds., The Soviet Art of War (Boulder, CO: Westview Press, 1982), p. 222–23.
  14. N. N. Kuznetsov, “On the Categories and Principles of Soviet Military Strategy”, Military Thought 1 (1984): p. 34.
  15. I. N. Rodionov, “On Certain Problems of the Development of Military Science”, Military Thought 11–12 (1991): p. 46–51.
  16. S. A. Komov, “On the Methods and Forms for the Conduct of Information War”, Military Thought 4 (1997): p. 18.
  17. V. V. Bulgakov, “Armed Conflict: Forms and Methods of Troop Operations”, Military Thought 1 (2002): p. 39–43.
  18. V. N. Zaritsky, “Forms and Methods of Deploying Missile Troops and Artillery in Combined-Arms Operations”, Military Thought (2006), sem informação sobre edição e páginas (O Foreign Military Studies Office não recebeu o exemplar da revista que continha este artigo).
  19. A. V. Dolgopolov e S. A. Bogdanov, “The Evolution of the Forms and Methods for Waging Armed Struggle under Network-Centric Conditions”, Military Thought 2 (2011): p. 49–58.
  20. A. P. Korabelnikov, “Promising Trends in the Development of Aerospace Defense Forms and Methods in the Russian Federation”, Military Thought 1 (2016): p. 70–78.
  21. Interfax News Agency (comunicado à imprensa), 3 Nov. 2016.
  22. “Shoygu Told About the Role of Military Education under Rearmament Conditions”, RIA Novosti, 23 Nov. 2016.
  23. Ministério da Defesa da Federação Russa (comunicado à imprensa), 30 mai. 2017.
  24. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “Asymmetric Actions in Support of the Military Security of Russia”, Military Thought 3 (2010): p. 16, p. 19–20.
  25. Ibid., p. 21-22.
  26. Ibid., p. 19-20.
  27. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “Initial Periods of War and Their Impact on a Country’s Preparations for a Future War”, Military Thought 11 (2012): p. 19.
  28. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “The Nature and Content of a New-Generation War”, Military Thought 10 (2013): p. 13–25.
  29. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “Military Futurology: Its Origin, Development, Role, and Place within Military Science”, Military Thought 8 (2014): p. 26.
  30. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “The Art of War at the Beginning of the 21st Century: Problems and Opinions”, Military Thought 1 (2015): p. 42.
  31. Ibid., p. 36.
  32. S. G. Chekinov e S. A. Bogdanov, “A Forecast of Future Wars: Meditation on What They Will Look Like”, Military Thought 10 (2015): p. 44.
  33. A. V. Kartapolov, “Lessons of Military Conflicts and Prospects for the Development of Means and Methods of Conducting Them, Direct and Indirect Actions in Contemporary International Conflicts”, Journal of the Academy of Military Science 2 (2015): p. 35–36.
  34. “Authors of Best Military Research Determined”, Advanced Research Foundation (site), 3 Nov. 2016.
  35. V. Kuzentsov e V. Verem’ev, “Contemporary Tactics: What Are They?”, Armeyskiy Sbornik [“Revista do Exército”] (Jun. 2016): p. 6.
  36. M. A. Gareev, “Anticipate Changes in the Nature of War: Every Era Has Its Own Kind of Military Conflict, and its Own Constraints, and its Own Special Biases”, Voyenno-Promyshlennyy Kuryer Online [“Correio Militar-Industrial On-line”], 5 Jun. 2013.
  37. Ibid.
  38. On Russia’s Information War Concepts, Before the House Armed Services Committee Subcommittee on Emerging Threats and Capabilities, 115th Cong., 1st sess. (15 Mar. 2017) (depoimento de Timothy L. Thomas, analista sênior, Foreign Military Studies Office, Fort Leavenworth, Kansas), acesso em 26 fev. 2018, https://www.gpo.gov/fdsys/pkg/CHRG-115hhrg25048/pdf/CHRG-115hhrg25048.pdf.

O Ten Cel Timothy L. Thomas, da reserva remunerada do Exército dos EUA, serviu durante mais de vinte anos como analista sênior no Foreign Military Studies Office, Fort Leavenworth, Kansas. É bacharel em Engenharia pela Academia Militar dos EUA e mestre em Relações Internacionais pela University of Southern California. Durante sua carreira militar, foi oficial da área de serviço exterior, especializado em estudos soviéticos/russos. É autor de vários artigos e livros, incluindo três sobre a Rússia: Russia Military Strategy: Impacting 21st Century Reform and Geopolitics; Recasting the Red Star: Russia Forges Tradition and Technology through Toughness; e Kremlin Kontrol.

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Quarto Trimestre 2018